O STF reage piorando a crise – Por William Waack
Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, durante sessão plenária. Foto: Wilton Junior / Estadão
O que hoje constitui a centralidade na crise de credibilidade do Supremo não passa de lateralidade na visão de pequeno grupo dentro da corte
Determinar o que é centralidade e o que é lateralidade faz toda diferença. Mas é ali que o STF se enredou. Disso depende a leitura da realidade e, portanto, como agir diante dos fatos.
Na visão de enorme parcela do público, o que hoje constitui a centralidade na crise de credibilidade (portanto, de legitimidade) do STF não passa de lateralidade na visão de pequeno grupo dentro da corte. Estamos falando do comportamento individual de integrantes do Supremo.
Mais ainda: como capturaram a instituição em defesa própria, sem terem conseguido — ou sequer se declararem dispostos — explicar de maneira convincente ligações com o escândalo do Master documentadas por fatos incontroversos, e não por ilações.
Pode-se argumentar que códigos de conduta ou maior “proximidade” com a sociedade alterem muito pouco as proporções da crise de confiança na instituição, portanto são perda de tempo, mas esse não é o ponto. O STF rachou não em função do que fazer diante da crise mas — e isso é decisivo — em função da compreensão da natureza da crise.
Para a ala personificada em torno de Gilmar Mendes, o comportamento individual de integrantes (especificamente Alexandre de Moraes e Dias Toffoli) é “lateralidade”, conforme declarou em recente entrevista a Band. Em outras palavras, não é o que realmente pesa, nem deveria estar no centro das atenções.
Nessa visão das coisas não há nada de novo no fronte: uma nova versão de “lavajatismo”, associada à imprensa burra (ou comprada) e a tradicional bandidagem do Legislativo, mais o bolsonarismo, fabricaram a tal crise de legitimidade. Num escândalo turbinado também pela malandragem de outros banqueiros, que lucraram muito vendendo papeis que sabiam serem podres. Ao Supremo só restaria então utilizar seus supremos poderes e resistir.
Numa linguagem bem simples, o capitão do Titanic ao bater no iceberg mandou o engenheiro averiguar a avaria no casco e concluiu que ia afundar. Os capitães do STF (têm vários, nem sempre de acordo entre si) acham que nem bateram num iceberg, enquanto o restante da ponte de comando tem dificuldades de avaliar os danos no casco, embora reconheçam que a nau está difícil de navegar e parece adernada.
O ineditismo dessa crise prossegue criando mais ineditismos. Como se antecipava, o STF virou fator eleitoral de peso, e está sendo atacado do PL ao PT, e fornecendo bandeiras fáceis para candidatos à presidência. Quem busca a reeleição, obedecendo ao instinto desse tipo de animal político, já pulou fora do barco.
Dentro da instituição esses fatos reforçaram as duas visões da realidade, que são irreconciliáveis. Não há mais volta a algum tipo de status quo ante (Estadão, 23/4/26)

