O último sopro do leviatã – Por Paula Sousa

O mundo que conhecíamos até ontem ruiu, mas quase ninguém percebeu o barulho dos escombros. Estou me referindo a Contrarrevolução de Donald Trump. Não se trata de uma simples alternância de poder ou de um soluço conservador na história americana. O que estamos testemunhando é o desmonte deliberado de um projeto de poder global que levou quase um século para ser construído. Mas cuidado: um monstro acuado nunca foi tão perigoso.
O anti-Roosevelt e o fim da longa marcha
Para entender a magnitude do que Trump está fazendo, precisamos olhar para trás. Na década de 1930, Franklin Roosevelt desenhou o "Leviatã" moderno: um Estado gigante, regulador e onipresente. Foi o solo fértil onde a esquerda plantou as sementes da "longa marcha pelas instituições". Seguindo a cartilha de Antonio Gramsci, o movimento marxista não precisou de fuzis para dominar o Ocidente; ele precisou de redações, salas de aula, departamentos de RH e, finalmente, as altas cortes judiciárias.
O jornalista Roberto Motta e o historiador Victor Davis Hanson convergem em um ponto fundamental: Trump é a antítese de Roosevelt. Ele não veio apenas para administrar o caos, mas para mudar a natureza do governo americano. Ao atacar o arcabouço do DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão), ele não está apenas combatendo siglas; ele está cortando as linhas de suprimento da guerra cultural marxista. O desmonte dessa estrutura é a maior derrota imposta à esquerda desde a queda do Muro de Berlim.
O motor culto: O sacrifício da Ucrânia
Contudo, a genialidade estratégica de Trump ou seu ímpeto pessoal não explicam tudo. Há uma variável silenciosa e sangrenta nessa equação: a Ucrânia.
Muitos analistas se recusam a ver o óbvio, mas a realidade é crua: o comunismo e o esquerdismo radical mundial sempre tiveram um fiador. Durante décadas, a Rússia de Putin foi o banco e o arsenal que mantiveram ditaduras satélites respirando por aparelhos. Se o Irã ousava desafiar o mundo, se Cuba sobrevivia à sua própria obsolescência e se a Venezuela de Maduro resistia à fome de seu povo, era porque o Kremlin servia de escudo e padrinho.
A guerra na Ucrânia mudou tudo. Ao ser tragada para um conflito de exaustão, a Rússia foi destruída militarmente e drenada financeiramente. O Putin que outrora enviava tropas para segurar Maduro no poder agora mendiga munição na Coreia do Norte. Sem o fiador, os regimes marxistas ficaram órfãos. Trump está desferindo golpes fatais agora porque a Ucrânia, com o sangue de seus soldados, limpou o caminho, neutralizando o grande protetor da esquerda mundial. É uma ironia histórica que poucos têm coragem de admitir: a vitória contra o comunismo global está sendo paga em solo ucraniano.
O efeito dominó: Do Irã às praias de Cuba
Com a retaguarda russa exposta, as peças do dominó começaram a cair com uma velocidade estonteante. O cenário que Trump está moldando é inédito:
- No Irã: O regime dos Aiatolás, que por décadas usou o medo da Terceira Guerra Mundial como moeda de troca, está prostrado. Com a morte de lideranças-chave e o caos interno, o "homem forte" de Trump nas negociações — possivelmente Galibaf — sinaliza um futuro de zero enriquecimento de urânio. O que Obama e Biden não conseguiram com bilhões de dólares em subornos, Trump está conseguindo com pressão e oportunidade.
- Em Cuba: A ditadura está à beira do colapso total. O fato de o governo cubano estar disposto a discutir compensações pelas propriedades americanas confiscadas em 1959 é um sinal de rendição. Eles sabem que o petróleo venezuelano acabou e que o apoio russo é uma memória distante.
- Na Venezuela: O desmantelamento da cúpula militar e a demissão de figuras como Padrinho López mostram que a lealdade a Maduro está se fragmentando. A impunidade, que parecia eterna, foi corrigida por uma nova postura americana que não aceita mais o jogo de cena diplomático.
A metamorfose do inimigo: O perigo subterrâneo
Aqui, no entanto, entra o alerta necessário. Seria uma miopia histórica acreditar que o marxismo mundial simplesmente assinará um termo de desistência e abrirá uma conta em um banco capitalista para trabalhar honestamente. A história nos ensina que a esquerda não morre; ela se transmuta.
Quando a União Soviética caiu, muitos decretaram o "Fim da História". Foi um erro fatal. O movimento apenas se tornou mais sutil, trocando a farda militar pela toga acadêmica e pelo discurso identitário. Agora, ao perderem o controle institucional nos Estados Unidos, eles entrarão em "modo de sobrevivência subterrânea".
O perigo desse movimento clandestino é imenso. Sem o escrutínio público e sem a necessidade de manter as aparências de um governo formal, essas células marxistas podem se tornar mais radicais e violentas. Elas operarão nas sombras, alimentando-se do sentimento mais perene e destrutivo do ser humano: a inveja. Enquanto houver desigualdade natural entre os homens, o discurso da inveja — disfarçado de justiça social — encontrará ouvidos ávidos.
O Brasil no fio da navalha
O que Trump está fazendo repercute diretamente em nosso solo. O Brasil hoje é um dos últimos baluartes onde a "longa marcha pelas instituições" ainda parece funcionar a pleno vapor. O uso do Judiciário para impor pautas rejeitadas pela maioria, a captura das universidades e o domínio da narrativa mediática são os sintomas de uma esquerda que vê o modelo americano como uma ameaça existencial.
A reação a Trump — os processos, as tentativas de assassinato, o cancelamento sistemático — é a prova de que ele acertou o coração do sistema. Eles não o odeiam pelo que ele diz, mas pelo que ele desfaz. Se Trump conseguir consolidar essa mudança estrutural, o modelo de dominação cultural da esquerda cairá como um castelo de cartas em todo o Ocidente.
A vigilância é o preço da liberdade
Estamos vivendo um momento épico. A determinação de um bilionário em "fazer a América grande outra vez" acabou se tornando a maior esperança para a liberdade global. Mas a vitória não está garantida e a guerra não acabou.
O comunismo está perdendo as batalhas territoriais e institucionais, mas ele ainda habita o submundo do espírito humano. A contrarrevolução de Trump nos deu uma chance, um respiro, uma janela de oportunidade aberta pelo enfraquecimento da Rússia e pela bravura da Ucrânia. No entanto, o otimismo deve ser acompanhado de uma vigilância implacável.
O Leviatã está ferido, mas ainda respira. Ele voltará nas sombras, mudará de nome e tentará seduzir as próximas gerações com o mesmo canto da sereia. Trump está limpando o palco, mas cabe a cada um de nós garantir que os atores da liberdade nunca mais abandonem o cenário. A história está sendo escrita agora, com a tinta da coragem e o papel da realidade nua e crua.
Que não sejamos cegos diante do que está diante de nossos olhos. (Paula Sousa é historiadora, professora e articulista; 1/4/2026)

