‘O vento está em nosso favor e agora vai ficar mais ainda’, diz CEO da JBS
Gilberto Tomazoni CEO global da JBS. Foto: Werther Santana/Estadão
Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS, maior produtora de proteína do mundo, diz que tem uma revolução no consumo de proteína acontecendo e as canetas emagrecedoras são mais um fator de aceleração dessa transformação.
Maior empresa de proteínas do planeta, a multinacional brasileira JBS está no melhor dos mundos. Ela produz em larga escala o alimento mais desejado hoje pelos consumidores.
Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS, que faturou até o terceiro trimestre do ano passado US$ 63,12 bilhões, com mais de 150 marcas de produtos que envolvem proteínas de bovinos, suínos, frangos, ovinos, peixes, ovos e até proteína vegetal, fabricados em mais de 26 países, diz que há uma mudança estrutural em curso no consumo de alimentos no mundo inteiro.
Na sua avaliação, as pessoas estão cada vez mais preocupadas e buscando informações sobre como se alimentar de forma saudável. “Tem uma revolução no consumo de proteína”, diz.
A forte demanda por alimentos proteicos, segundo o executivo, não se trata de uma onda, mas de uma tendência que veio para ficar. E as canetas emagrecedoras, que aumentam a necessidade de consumo de proteínas por parte dos seus usuários, são mais um fator de aceleração dessa mudança.
Tomazoni diz que os sinais dessa transformação do mercado estavam claros há mais de um ano e que a sua companhia está preparada para atender a essa demanda, que ficou muito mais forte agora.
Recentemente, a empresa lançou refeições congeladas com maior teor de proteína e uma linha de produtos para serem preparados na Air Fryer. Em janeiro do ano passado, a JBS estreou no segmento de ovos, uma proteína mais barata em relação às demais.
A companhia virou sócia da Mantiqueira Alimentos, com quem adquiriu a Hickman’s, dos Estados Unidos, e consolidou-se como a terceira maior produtora de ovos do mundo.
Tomazoni diz que a indústria de alimentos no mundo está correndo atrás de mexer no portfólio de produtos, enquanto a sua empresa está trabalhando para enriquecê-lo, oferecendo mais formas de consumir proteínas. “O vento está em nosso favor. Já estava e agora vai ficar mais ainda.” A seguir, os principais trechos da entrevista.
A JBS sentiu aumento do consumo de proteínas no Brasil e em outros mercados onde atua por conta das canetas emagrecedoras?
Acho que as canetas são um dos drivers. O fato é que temos uma mudança estrutural no consumo de proteína no mundo inteiro. A proteína deixou de ser apenas um nutriente básico para virar uma categoria funcional de alto valor. Esse é o conjunto das coisas. A caneta é mais um elemento, não é o único.
Quais são os outros elementos?
Primeiro, o consumidor, de uma maneira geral, está muito mais consciente sobre saúde, sobre composição corporal, mais informado sobre pesquisa científica e se informando mais. Proteína é essencial para o ser humano: para a pele, para os músculos. Novas pesquisas médicas divulgadas fazem com que o consumidor tenha mais consciência de que proteína é importante.
A outra questão é geracional. Tem jovens que estão consumindo mais proteína porque fazem mais exercício para formar músculo. Os mais idosos têm necessidade de proteína para prevenir sarcopenia. Há várias outras dietas, antigamente era só dieta. Agora é dieta focada em saciedade, controles metabólicos. E tudo tem a ver com comer menos açúcar e comer mais proteína, comer menos carboidrato.
Seguramente a caneta facilitou porque acelera tudo. Por isso, é difícil (saber) quanto (o aumento do consumo de proteína) é por conta da caneta. O governo americano mudou a regulamentação. Inverteu a pirâmide (alimentar), colocou a carne vermelha lá em cima e ela estava embaixo. Então, você vê que é o (órgão) regulador mudando a pirâmide, dizendo que tem de consumir de 1,2 a 1,6 grama (de proteína) por quilo de peso. Isso é uma mudança que impacta diretamente no consumo.
E por que fizeram essa mudança?
Porque tem aminoácidos que o corpo não produz. Então, esse conjunto (de fatores) está levando ao aumento de consumo de proteína. E é uma coisa que está acontecendo no mundo inteiro, em todos os mercados. No CAGNY (Consumer Analyst Group of New York, maior conferência do setor de consumo dos Estados Unidos) em fevereiro de 2026, em Orlando (EUA), a gente viu um esforço de todo mundo querendo mudar o seu portfólio para produtos com alta (composição de) proteína.
Inacreditável como a Coca-Cola colocou proteína em inúmeros produtos, a PepsiCo está colocando proteína em snacks. É um movimento global das empresas procurando atender ao consumidor que procura mais proteína.
O sr. acha que tem uma revolução no consumo de proteína?
Tem uma revolução no consumo de proteína. Não é uma onda, é uma mudança estrutural. As canetas fazem parte, aceleram uma mudança ou facilitam um hábito que o consumidor quer ter de consumir mais proteína, de consumir menos caloria. E aí, eliminam o açúcar e colocam a proteína na dieta.
O que o consumidor procura, na verdade?
Ele procura conveniência. Como comer essa proteína? Tenho de comer 1,6 grama de proteína por quilo. Mas como é que eu como? Parece muita coisa. Aí entram os alimentos de alta quantidade proteica, porque você quer ingerir menos caloria. Tem de ter mais qualidade de proteína. Por isso, lançamos o Seara Protein (refeições completas com mais de 30 gramas de proteína).
Temos os snacks na Inglaterra, o Fridge Raiders, que é um snack proteico. Você vai criando condições para o consumidor poder consumir mais proteína na dieta dele. Ele quer, ao mesmo tempo, mais proteína e um Clean Label (produtos com ingredientes naturais, simples, sem aditivos artificiais ou corantes e conservantes sintéticos), quer o menos possível de componentes. Por isso, temos esses produtos.

Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS, diz que está trabalhando para enriquecer o portfólio de produtos, oferecendo mais formas de consumir proteínas. Foto: Werther Santana/Estadão
A JBS está preparada para essa revolução?
Primeiro ponto é que o consumidor está comendo mais em casa. 86% dos consumidores nos Estados Unidos já fazem refeições em casa. Um pouco é por conta de que eles gostam de controlar sua dieta, um pouco é por conta de que também o restaurante ficou caro. O fato é que 60% reduziram o consumo fora de casa.
E nos alimentos congelados tem um grande trabalho (a ser feito). Por isso, que a Seara no Brasil lançou produtos, como Perfeito para Air Fryer, porque facilita o consumo. As marmitas com alta proteína (Seara Protein), o Air Fryer e o Clean Label (são resultado de) tudo que a gente já estava vendo acontecer. Os sinais já estavam claros há mais de anos, mas começaram a aparecer muito mais fortes agora.
Qual é o próximo passo?
Agora é acelerar essa oferta de produtos que facilitam o consumo. Como é que o consumidor vai comer proteína? Vamos facilitar a vida dele. O consumidor está muito preocupado com a qualidade da proteína que está comendo. Por isso, as marcas têm um papel relevante para garantir que você esteja consumindo alguma coisa que tenha o controle da cadeia total. A gente está trabalhando também nessa questão de ter alta qualidade de proteína. Esse é o caminho que está dirigindo todo o movimento de consumo de proteína.
Qual é a qualidade da proteína que você está comendo? Porque a proteína, dependendo do que você está procurando, tem mais ou menos o tipo de uma proteína. A gente cria condições para as pessoas poderem fazer (o consumo de proteína) de uma maneira mais simples. O nosso portfólio já é Clean Label. Não temos deficar adaptando, nós temos de criar condições de maior praticidade (no consumo) dos produtos, para ser mais fácil de preparar.
Como assim?
Por isso, que a gente trabalha nesse conjunto multiproteína. Entramos no negócio do ovo com a Mantiqueira (em janeiro de 2025) e compramos a empresa de ovos nos Estados Unidos (Hickman’s, criando a terceira maior produtora de ovos do mundo em novembro de 2025), porque proteína de ovo é acessibilidade. Entramos no negócio de salmão na Austrália (em 2021). Temos hoje praticamente todas as proteínas. Estamos em plant-based (produtos e dietas baseados em proteínas e ingredientes de origem vegetal). Acabamos de comprar da Unilever, a The Vegetarian Butcher (em março de 2025) na Europa. Então, a gente fica trabalhando os vários portfólios, tudo focado em proteína.
Por quê?
Primeiro, porque é o nosso core. Segundo, porque é a tendência. Há pesquisas que falam em 5% ao ano de aumento de consumo de proteína até 2029. É um mercado de US$ 9,4 bilhões. Vai para um mercado de US$ 12 bilhões. É muito significativo. As canetas estão aí nesse contexto.
Quanto a empresa investiu no Brasil ou no mundo na linha de produtos que alia conveniência e mais proteína?
Somos bem descentralizados, investimos na Austrália, no Brasil. Aqui no Brasil, a gente está investindo em produtos de conveniência. A Seara lançou um grupo enorme de produtos de conveniência. A Friboi lançou produtos de conveniência.
Originalmente, a JBS é uma empresa de proteína ligada ao boi. Qual é a posição nas outras proteínas?
Nós somos o maior produtor mundial de carne bovina. Produzimos carne bovina no Brasil, na Austrália, nos Estados Unidos e no Canadá. Somos o maior produtor de frango do mundo. Somos o segundo maior produtor de suínos do mundo. Até produzimos mais frango do que bovino, em termos de volume.
O que a empresa está fazendo agora?
Estamos construindo marcas também. Os nossos produtos já são proteicos. Agora a gente está falando de como é que podem ser mais proteicos ainda. Por exemplo, nós estamos na produção de peptídeos de colágeno. A proteína deixou de ser apenas um nutriente básico. Nesse contexto todo, a proteína passou a ter um valor funcional. Essa mudança favorece o nosso core porque nós somos uma empresa multiproteína.
Entramos em outros negócios para enriquecer ainda mais o portfólio, como falei: ovo, salmão e produtos vegetais. Esse é o contexto que eu vejo. Por isso que eu falo que não é uma onda, é uma mudança estrutural e veio exatamente de encontro ao nosso portfólio de produtos. Quando eu vi lá no Cagney todo mundo querendo adaptar o portfólio, eu falei: o nosso portfólio é esse.
Nós só temos que enriquecer um pouco mais. Como o consumidor pode consumir o nosso produto, deixar mais fácil para ele preparar, mais fácil para ele usar. Mas esse é o nosso portfólio. Estamos dando conveniência ao portfólio que nós já tínhamos.
Quanto à popularização da caneta, com a quebra da patente, pode ampliar os negócios da JBS, que já são gigantescos?
Acho que só acelera ainda mais porque facilita para o consumidor perder peso. E quando ele vai perdendo peso, ele tem ainda uma necessidade maior do consumo de proteína para não perder massa magra. Como eles comem pouco, o valor nutricional tem de ser muito maior. Tem de enriquecer o que eles comem. A caneta acelera o aumento do consumo de proteína seguramente.
Com a quebra de patente das canetas emagrecedoras, pessoas de menor renda vão ter acesso ao medicamento. A empresa tem preocupação de tornar a proteína mais acessível em termos de preço na gôndola dos supermercados?
Sem dúvida. Eu até te falei da entrada nesse negócio da proteína no ovo. Foi também por conta de ver esse mercado de uma proteína de maior acessibilidade. Nós estamos desenvolvendo e temos várias marcas na Seara e outras marcas regionais, que são exatamente para construir essas opções. Para todo mundo poder consumir proteínas, independentemente da classe social.
Vamos ter sempre uma solução para o consumidor. Não é uma elitização. É o contrário, é uma democratização do consumo da proteína.
E o que pode dar errado? O sr. falou em mudança estrutural no consumo de proteínas. E se for algo passageiro, com tantos investimentos das indústrias....
Difícil dizer o que pode dar errado. Como eu citei para você, tem muitas coisas. Primeiro, eu acho que a maior demonstração dessa questão do consumo de proteína vem da mudança das recomendações do governo americano, do FDA, (Food and Drug Administration, a agência reguladora federal dos EUA, equivalente à Anvisa no Brasil), que inverteu a pirâmide (alimentar). Isso não é uma coisa simples.
Mas, independente dessa mudança, a população continuará crescendo no mundo. Nós vamos ter até 2050 mais dois bilhões de pessoas. Se tivermos o mesmo padrão de consumo, teremos mais estômagos para alimentar. O consumo de proteína vai continuar crescendo, porque a população continuará crescendo.
Um segundo ponto: a população tem aumento de renda. E, aumentando a renda, entra mais proteína no prato. Isso está comprovado. A gente vê esse movimento principalmente na Ásia. Independente dessas mudanças, o mercado já caminha nesse sentido.
Achei interessante o fato citado pelo sr. que a Coca-Cola está querendo colocar proteína em seus produtos. A JBS pode, inclusive, ser fornecedora de proteínas para indústrias de outros segmentos?
Nós produzimos colágeno aqui no Brasil. Já fornecemos para a Mamba Water. Eles têm uma água à qual adicionam colágeno. É o nosso colágeno que eles estão usando. Por isso, nós também temos investido nesse segmento. Inclusive, temos algumas patentes.
Então, não é só o produto final, a JBS também está investindo nessa área de ingredientes proteicos para outras indústrias?
Exatamente. É outra avenida de crescimento bem interessante (Estadão, 25/3/26)

