Os registros que moldaram a credibilidade do cooperativismo paulista
Memórias do agro
Por Rodrigo Simões
As páginas preservadas por Otacílio Tomanik mostram que, muito antes da informatização dos processos, o cooperativismo paulista já compreendia que organização, fiscalização, registros confiáveis e transparência eram pilares indispensáveis para o fortalecimento das cooperativas e para o desenvolvimento sustentável do campo.
Quando se fala em transformação digital, compliance, governança, indicadores de desempenho e gestão baseada em dados, costuma-se imaginar que esses conceitos nasceram nas últimas décadas. No entanto, um documento produzido em 1937 pelo Departamento de Assistência ao Cooperativismo da então Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Indústria e Comércio mostra exatamente o contrário.
Muito antes dos computadores, das planilhas eletrônicas e da internet, já havia quem defendesse que uma cooperativa somente poderia crescer se conhecesse profundamente seus próprios números.
É exatamente isso que revela o relatório coordenado por Otacílio Tomanik, um dos principais responsáveis pela estruturação do cooperativismo paulista nas primeiras décadas do século XX.
No capítulo anterior, vimos como o departamento utilizava jornais, boletins e publicações para difundir a cultura cooperativista. Agora, as páginas seguintes mostram outro aspecto igualmente moderno: a preocupação permanente com organização administrativa, fiscalização técnica e qualidade das informações.
Mais do que registrar cooperativas, o departamento procurava compreender sua realidade econômica.
O relatório descreve uma estrutura de trabalho surpreendentemente avançada para a época.
Em vez de simplesmente arquivar documentos, os técnicos analisavam balancetes, organizavam fichários, acompanhavam alterações societárias, verificavam demonstrações contábeis, realizavam inspeções presenciais e mantinham um controle permanente da situação jurídica de cada cooperativa.
Na prática, era um verdadeiro sistema de inteligência administrativa.
O texto explica que os documentos passaram a ser separados em arquivos distintos: econômicos, jurídicos e cadastrais. Os balancetes eram transcritos para fichas específicas, permitindo acompanhar a evolução financeira das cooperativas ao longo do tempo.
Hoje chamaríamos isso de banco de dados.
Em outra passagem, o relatório informa que forma desdobrados 164 processos para análise detalhada da situação das cooperativas, avaliando reformas estatutárias, documentação, registros e regularidade jurídica.
Mais do que fiscalizar, o objetivo era orientar.
Esse talvez seja o aspecto mais interessante do trabalho desenvolvido por Otacílio Tomanik.
A fiscalização não aparece como instrumento punitivo, mas como ferramenta de fortalecimento institucional.
As visitas “in loco” permitiam identificar falhas, oferecer soluções, orientar dirigentes e melhorar a qualidade da gestão cooperativista.
É exatamente o conceito que hoje chamamos de fiscalização orientadora.
Os números apresentados impressionam.
Em 1937, o Departamento acompanhava 96 cooperativas em funcionamento no Estado.
Dessas, 34 enviavam balancetes regularmente, 36 de forma irregular e apenas 26 ainda não prestavam essas informações.
Mais importante do que o percentual é perceber que o Estado já acompanhava indicadores de desempenho das cooperativas há quase noventa anos.
Hoje falamos em dashboards.
Naquela época, falava-se em fichários.
Mas a lógica era exatamente a mesma.
Outro trecho chama atenção pela atualidade.
Ao encerrar o capítulo, Otacílio Tomanik apresenta sugestões para aperfeiçoar o sistema de fiscalização.
Entre elas estavam a simplificação dos registros, a criação de fichas anuais para acompanhar balancetes e associados, além de registros específicos para monitorar alterações no capital das cooperativas.
Sua justificativa é extremamente moderna.
Segundo ele, esse sistema permitiria produzir estatísticas mais precisas, facilitar o controle das atividades e fornecer informações cada vez mais úteis ao serviço de divulgação do departamento.
Em outras palavras, defendia que boas decisões dependem de boas informações.
Novamente, um conceito absolutamente contemporâneo.
É impossível não fazer um paralelo com os dias atuais.
Vivemos a era do Big Data, da inteligência artificial e dos sistemas integrados de gestão.
Entretanto, os princípios continuam exatamente os mesmos defendidos por Otacílio Tomanik em 1937: organização, transparência, registros confiáveis, fiscalização técnica e informações de qualidade.
A tecnologia mudou.
Os valores permaneceram.
Talvez essa seja a maior lição escondida nessas páginas quase centenárias.
Elas mostram que inovação não começa necessariamente com novas ferramentas.
Começa com novas ideias.
E, nesse aspecto, o cooperativismo paulista esteve muito à frente de seu tempo.
Hoje, ao revisitarmos esse acervo histórico, percebemos que muitos dos fundamentos da moderna governança cooperativista já estavam presentes quando tudo ainda era registrado em máquinas de escrever, fichários de papel e relatórios datilografados.
A história, mais uma vez, mostra que o futuro costuma nascer muito antes do que imaginamos.
(Rodrigo Simões, Jornalista / Administrador de Empresas / Gestor Público; Mtb 32.591/SP; 23/7/26)

