05/06/2026

PCC, Comando Vermelho e a ilusão da salvação americana

PCC, Comando Vermelho e a ilusão da salvação americana

Imagem Reprodução Blog Metrópoles

 

Por Lúcia Festuccia

 

Antes da euforia, um choque de realidade.

 

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas provocou comemorações imediatas em setores da direita brasileira. Nas redes sociais, multiplicaram-se discursos triunfalistas sugerindo que o crime organizado finalmente estaria encurralado.

Mas talvez seja hora de substituir a euforia pela lucidez.

 

A medida é importante? Sim.

Tem potencial para atingir financeiramente as facções? Sem dúvida.

Mas acreditar que uma decisão tomada em Washington resolverá um problema que o próprio Estado brasileiro não consegue enfrentar há décadas é, no mínimo, um exercício de ingenuidade política.

 

O Brasil que o mundo enxerga

 

A classificação permite aos Estados Unidos ampliar investigações, bloquear ativos, congelar recursos, rastrear movimentações financeiras e dificultar a atuação internacional dessas organizações criminosas.

Trata-se de uma medida séria. E necessária.

 

Afinal, PCC e Comando Vermelho deixaram há muito tempo de ser simples quadrilhas de periferia. Transformaram-se em verdadeiras corporações criminosas, dotadas de estrutura empresarial, logística sofisticada, conexões internacionais e capacidade de influência que ultrapassa fronteiras.

 

O problema é que a iniciativa americana expõe uma realidade constrangedora: foi preciso que uma potência estrangeira reconhecesse formalmente aquilo que milhões de brasileiros enfrentam diariamente.

Enquanto isso, no Brasil, o debate público frequentemente parece mais preocupado em travar disputas ideológicas do que em enfrentar a expansão concreta do poder criminoso.

 

A dura verdade: Nada muda automaticamente

 

A pergunta que interessa ao cidadão comum é simples:

O que muda amanhã para quem vive em uma comunidade dominada pelo tráfico?

O que muda para o comerciante que paga extorsão?

O que muda para a família cercada pela violência?

 

A resposta continua sendo frustrante.

Sem cooperação efetiva das autoridades brasileiras, sem integração entre os órgãos de segurança e sem vontade política para enfrentar estruturas criminosas profundamente enraizadas, a medida americana terá alcance limitado dentro do território nacional.

Nenhum decreto assinado na Casa Branca substitui a ausência do Estado brasileiro onde ele deveria estar presente há décadas.

 

O risco que poucos querem discutir

 

Existe ainda um aspecto frequentemente ignorado pelos mais entusiasmados.

Organizações criminosas não desaparecem porque tiveram contas bloqueadas ou ativos confiscados. Elas se adaptam.

Quando perdem uma fonte de receita, procuram outra.

Se recursos internacionais forem atingidos, nada impede que ampliem atividades criminosas locais para compensar as perdas. Mais roubos. Mais extorsões. Mais pressão sobre comunidades vulneráveis.

Isso significa que uma ofensiva financeira internacional, desacompanhada de uma estratégia nacional consistente, pode produzir consequências indesejadas para a própria população brasileira.

O crime organizado não opera segundo comunicados oficiais nem responde a discursos políticos. Ele reage a incentivos econômicos.

E a experiência histórica demonstra que facções acuadas frequentemente se tornam ainda mais agressivas.

 

O problema é muito maior do que duas siglas

 

Mesmo que PCC e Comando Vermelho fossem severamente enfraquecidos, o problema da criminalidade organizada continuaria de pé.

Outras facções, grupos armados e estruturas milicianas permanecem espalhados pelo país. O espaço deixado por uma organização raramente permanece vazio por muito tempo.

A lógica do crime é simples: onde existe lucro, alguém ocupará o território.

Foi assim em diversos países. Foi assim em inúmeras operações contra cartéis. Foi assim em campanhas consideradas históricas que, anos depois, revelaram resultados muito mais modestos do que prometiam.

No universo do crime organizado, não existe vácuo permanente.

 

O desconforto político que chama atenção

 

Talvez um dos aspectos mais reveladores tenha sido a reação de determinados setores políticos brasileiros.

Em vez de celebrar uma iniciativa destinada a sufocar financeiramente facções responsáveis por milhares de mortes, parte da esquerda demonstrou evidente desconforto diante da medida.

O incômodo não passou despercebido.

Num país em que o crime organizado já exerce influência econômica e territorial em diversas regiões, qualquer resistência ao seu enfrentamento inevitavelmente desperta questionamentos legítimos da opinião pública.

Ao mesmo tempo, a polarização brasileira corre o risco de transformar uma questão de segurança nacional em mais um capítulo da disputa ideológica permanente, desviando a atenção do problema central: a existência de organizações criminosas que desafiam abertamente a autoridade do Estado.

 

O problema do Brasil continua sendo o Brasil

 

A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pode representar um golpe relevante contra suas operações financeiras internacionais.

Mas quem acredita que isso, por si só, transformará a realidade brasileira corre o risco de sofrer uma profunda decepção.

O verdadeiro problema continua sendo interno.

 

Todas as medidas adotadas por Donald Trump obedecem à lógica do "America First". Seu objetivo principal não é resolver os problemas do Brasil, mas proteger os interesses, a segurança e as instituições dos Estados Unidos.

Isso não significa que o Brasil não possa se beneficiar dos efeitos indiretos dessa política. Pode.

Mas, para isso, seria necessária uma cooperação séria, transparente e efetiva entre os dois países.

 

E é justamente nesse ponto que surgem as dúvidas.

Sem alinhamento institucional, sem integração entre as autoridades e sem vontade política para transformar ações internacionais em resultados concretos dentro do território nacional, os efeitos da medida tendem a ser limitados.

O combate ao crime organizado não é uma batalha vencida por uma única operação, uma única lei ou uma única decisão internacional.

Trata-se de uma guerra permanente contra estruturas que se adaptam, se reorganizam e se reinventam continuamente.

A experiência internacional é clara nesse aspecto. Organizações extremistas e grupos criminosos sobrevivem mesmo após perder líderes, recursos financeiros e áreas de influência. Sofrem golpes importantes, recuam, fragmentam-se e, muitas vezes, retornam sob novas formas.

 

Com as facções criminosas, a lógica é semelhante.

Por essa razão, seria um erro desprezar a iniciativa americana. Toda ação capaz de dificultar a movimentação financeira dessas organizações deve ser considerada positiva. Enfraquecer suas fontes de recursos é uma obrigação dos Estados modernos.

Mas seria igualmente um erro transformar essa medida em motivo para triunfalismo.

A história recente do Brasil recomenda prudência.

 

O crime organizado cresceu durante décadas, expandiu seus tentáculos sobre regiões inteiras do país e consolidou estruturas que hoje desafiam a autoridade do próprio Estado.

Nada indica que essa realidade será revertida por uma única decisão tomada em Washington.

Talvez a medida produza resultados importantes.

Talvez represente o início de uma pressão internacional mais ampla contra as facções brasileiras.

Talvez abra novos caminhos para investigações, cooperação internacional e bloqueios financeiros.

Mas ainda é cedo para comemorar.

Muito cedo.

 

Num país marcado pela fragilidade das políticas de segurança pública, pela crescente desconfiança nas instituições e pela incapacidade histórica de enfrentar o crime organizado de forma contínua, estratégica e coordenada, o máximo que se pode afirmar neste momento é que surgiu uma oportunidade.

Se ela será aproveitada ou desperdiçada, dependerá menos de Washington e muito mais de Brasília.

E é justamente essa constatação que impede qualquer entusiasmo exagerado.

Porque, no fim das contas, o problema do Brasil continua sendo o próprio Brasil.

E essa talvez seja a constatação mais amarga de todas.

 

Sobre a autora

 

Lúcia Festuccia - Advogada com sólida atuação jurídica em Ribeirão Preto, Lucia Festuccia construiu uma trajetória marcada pela defesa de princípios, pela experiência prática no direito e pelo engajamento nas discussões políticas contemporâneas. Ativista e voz ativa no cenário público, passa a integrar o time de articulistas do portal BrasilAgro, contribuindo com análises jurídicas, institucionais e sociais. Também atua como membro da equipe pedagógica e consultora jurídica do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil, onde desenvolve ações voltadas à formação cidadã, à valorização da cultura e ao fortalecimento das instituições; 3/6/2026