16/03/2026

PF e imprensa implodem pacto de silêncio – Editorial Folha de S.Paulo

PF e imprensa implodem pacto de silêncio – Editorial Folha de S.Paulo
  • Impediu-se tentativa de altas autoridades de abafar indícios de alastramento da corrupção
  • A atitude correta da maioria dos ministros do STF seria favorecer investigação profunda e definitiva sobre as suspeitas

 

Foi abalado o pacto de silêncio tacitamente firmado nos últimos anos entre altas autoridades e a elite política do país em torno das evidências de alastramento da corrupção. A Polícia Federal, na esfera pública, e o jornalismo profissional, na sociedade, têm sido os responsáveis por fazer soar o alarme.

 

A esta altura, pode-se estimar o efeito da anestesia se ela ainda estivesse ativa. Com a sem cerimônia usada para suspender R$ 18,8 bilhões em multas da Lava JatoDias Toffoli teria enterrado qualquer investigação dos malfeitos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

 

Passaria incólume a relação multimilionária do escritório da mulher de Alexandre de Moraes com o Banco Master, bem como a comunicação do ministro do Supremo com Vorcaro horas antes de ele ser preso, e seu banco, liquidado. Público e aposentados do INSS teriam sido privados de saber do furto de R$ 6,3 bilhões por quadrilhas enquistadas no Executivo federal.

 

Não teriam visto a luz do dia os indícios de conexão entre o desfalque e um filho do presidente da República.

 

Não que as tentativas de abafar os escândalos e suas repercussões tenham cessado. O ministro Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilos, decretada pela CPI do Crime Organizado, da empresa de Dias Toffoli que recebeu pagamentos de um fundo ligado a Vorcaro.

 

Seu colega Flávio Dino aliviou a barra de Fabio Luis Lula da Silva ao derrubar a quebra de seus sigilos, decidida pela CPI do INSS. Não há assinatura petista no pedido de CPI para investigar Toffoli e Moraes no Senado.

 

Elevou-se o custo do abafa, no entanto. Com a ferida exposta, cada atitude de autoproteção de autoridades e políticos reverte em mais desgaste institucional. Abafar tornou-se quase impossível. A Polícia Federal deu mostras de independência suficientes para assegurar que as investigações vão prosseguir a despeito de haver pressão contrária nas altas esferas. A condução de André Mendonça dos dois inquéritos —Master e INSS— tampouco indica concessões à acomodação.

 

É uma lástima que o ânimo corporativista subjugue o republicano nessa crise grave, que pela primeira vez engolfa dois juízes da mais alta corte. A atitude correta da maioria dos ministros do STF seria favorecer investigação profunda e definitiva sobre as suspeitas, mesmo que isso implique atingir os próprios integrantes.

 

Esquivar-se da tarefa vai alimentar as correntes antissistema às portas da eleição nacional. E vai delegar a outros Poderes, de pendor plebiscitário, uma resposta que deveria vir embalada em diligência e equilíbrio (Folha, 15/3/26)