PIB da Agropecuária cresceu 6,8% no segundo trimestre de 2026
Café esteve entre os principais vetores de crescimento do PIB da agropecuária no segundo trimestre — Foto: Canva/Creative Commons
O Produto Interno Bruto (PIB) do setor agropecuário teve crescimento de 2,8% no segundo trimestre, na comparação com o primeiro trimestre. A alta do segundo trimestre veio em acima da projeção mediana de aumento de 0,2%, esperada por analistas de consultorias e instituições financeiras consultados pelo Valor.
Em comparação ao segundo trimestre de 2025, o PIB agro cresceu 6,8%. A expectativa mediana pelo Valor era de aumento de 1,6%. No resultado acumulado em 12 meses, o setor agropecuário avançou 6,2% até o segundo trimestre. O resultado acumulado até o primeiro semestre de 2026 foi de 3,6%.
Soja, café e pecuária foram destaques do setor
Na comparação com o segundo trimestre de 2025, houve aumento de 5,3% da soja e de 15,1% do café. Por outro lado, os destaques negativos foram arroz (-11,3%) e algodão (-6,7%). “A agropecuária foi puxada pela soja, café e pela pecuária, com destaque para aves e bovinos”, afirmou o coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Ricardo Montes de Moraes.
O IBGE informou que o Priduto Interno Bruto da Agropecuária atingiu o maior nível da série histórica, iniciada em 1996. Em valores correntes, a produção rural gerou R$ 204,6 bilhões entre abril e junho de 2026. A participação do setor no PIB do Brasil (de R$ 3,4 trilhões) foi de 6,01% (Globo Rural, 1/9/26)
Soja e carnes puxam PIB da agropecuária, mas próximos resultados devem desacelera

Carne foi um dos principais vetores de crescimento do PIB da Agropecuária no segundo trimestre do ano — Foto: Getty Images
Análise de consultor da EY Brasil considera, entre outros fatores, a diminuição dos abates de bovinos no terceiro trimestre.
Uma alta consistente para o Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária já era esperada para o segundo trimestre e se confirmou. O setor cresceu 6,8%, comparado ao mesmo período de 2025, impulsionado pelo desempenho forte na produção de cadeias como a de soja e carnes, avalia José Carlos Hausknecht, sócio em Agronegócios na EY Brasil.
No entanto, a expectativa é que os próximos resultados apresentem desaceleração, embora a estimativa da consultoria para 2026 como um todo ainda seja de alta, entre 1,6% e 2%.
“Tivemos uma primeira safra muito boa. A soja é a grande puxadora do PIB agropecuário do segundo trimestre, carnes também”, destaca o especialista. Café e cana-de-açúcar foram outros produtos que contribuíram para impulsionar o resultado.
Os abates de bovinos avançaram em meio a uma corrida para exportar a carne ao principal comprador do Brasil, a China, enquanto ainda havia espaço na cota de 1,1 milhão de toneladas com tarifa reduzida. A cota terminou o primeiro semestre praticamente preenchida.
“Agora, já estamos vendo uma desaceleração dos abates de bovinos no terceiro trimestre, pelo fim da cota da China. Algumas outras coisas também devem reduzir o crescimento. Quando olhamos para o resto do ano, acreditamos que virá uma desaceleração (no PIB)”, estima Hausknecht.
Além da carne bovina, o especialista acredita que as produções de milho, trigo e arroz podem contribuir para a desaceleração do PIB agro. Na outra ponta, culturas como algodão, café e cana seguem bem. Mas para a alta de até 2% estimada para 2026, a soja seria a grande protagonista.
“A safrinha de milho já está finalizando a colheita. É uma safrinha com relativa queda de 2% na produção, comparada ao ano passado. O arroz é agora, e a quebra do trigo vai ficar mais para o final do ano”, afirma.
O fenômeno climático El Niño, que está ativo e pode ser o mais forte da história, não representa grandes riscos para a safra deste ano, ao ponto de influenciar negativamente o PIB da agropecuária. O efeito, porém, pode vir em 2027.
“A influência dele (El Niño) vai ficar para o ano que vem. Embora a gente nunca saiba a intensidade exata e a duração, olhando para anos anteriores, ele sempre prejudicou a produção (de grãos)”, alerta o sócio da EY (Globo Rural, 1/9/26)
Agro cresceu acima do esperado, mas rentabilidade preocupa CNA

Soja, carro-chefe da produção agropecuária brasileira, não teve um salto de preços em 2026 — Foto: Divulgação
País produziu mais, enquanto o preço pago por alguns produtos enfrentou estagnação.
O desempenho do PIB da agropecuária ficou acima do esperado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A entidade, inclusive, planeja rever a sua estimativa para o crescimento da agropecuária em 2026, que inicialmente era de 2,1%. Ainda assim, a confederação analisa os dados com cautela, devido à sazonalidade típica da atividade.
O coordenador do Núcleo Econômico da CNA, Renato Conchon, ressalta que o PÌB calculado pelo IBGE é fortemente influenciado pelo volume produzido. Portanto, o desempenho positivo do setor agropecuário não significa uma maior rentabilidade para o produtor rural.
"Quando olhamos para a renda, tem algumas questões que nos preocupam, porque em algumas cadeias a gente vê uma certa estagnação de preços comparados à série histórica", observa, citando como exemplo a soja, carro-chefe da produção agropecuária brasileira, que não teve um salto de preços em 2026.
Na agricultura, os destaques do segundo trimestre, segundo a CNA, foram a soja e o café arábica. O milho ficou praticamente estagnado, enquanto o arroz apresentou queda. Na pecuária, todos os segmentos apresentaram altas, incluindo couro e ovos. A expectativa da CNA é de que o agro cresça em ritmo menor no terceiro trimestre do ano.
O clima também é de cautela com relação à próxima safra. Conchon observa que os produtores irão cultivar o ciclo 2026/27 em meio a incertezas com o clima, que pode ocasionar veranico durante o enchimento dos grãos e trazer a necessidade de replantio em alguns casos - o que implica em custos maiores.
Também há inquietação com relação aos preços internacionais de soja e milho, desempenho da safra dos Estados Unidos, taxas de juros elevadas, endividamento e aumento dos pedidos de recuperação judicial no setor.
Receita "não tão brilhante"
O Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária teve um avanço expressivo de 6,8% no segundo trimestre, em relação ao ano passado, em função do aumento no volume produzido pelo país. Entretanto, a receita agrícola “não foi tão brilhante assim”, sobretudo nas áreas de grãos e culturas perenes, avalia o conselheiro sênior da Volt Partners, Fábio Silveira.
Segundo o especialista, há uma tendência de alta para os preços de soja e milho que pode ajudar na evolução do setor, mas este efeito positivo pode influenciar os resultados do PIB somente no ano que vem. “As economias asiáticas, não só a da China, podem contribuir para isso (com a demanda)”, afirma.
No caso dos preços de açúcar e café, o cenário não é favorável e para 2027 a expectativa de Silveira é que as cotações continuem “deprimidas”, principalmente para o açúcar.
Apesar destas condições e da inadimplência crescente no campo, o Brasil ainda pode conviver com um desempenho “razoável” da agropecuária no acumulado de 2026. A projeção para o PIB do setor no ano é de uma alta de 4,5%, comparada a 2025. Já o PIB nacional pode crescer 1,7%, segundo Silveira.
“A gente caminha para taxa de crescimento da agropecuária da ordem de 4,5% em 2026. É um bom desempenho, que vai dar uma sustentação mínima pelo menos para a evolução de serviços e indústria. Boa parte de serviços e indústria está conectada com a agropecuária”, diz.
Para Octaciano Neto, fundador da Zera, existe uma crise financeira em parte do agro, com produtores e empresas enfrentando dificuldades, sobretudo entre os mais alavancados e expostos ao custo elevado do crédito, mas isso não pode ser confundido com uma crise estrutural do setor.
“O agro brasileiro continua produzindo mais, ganhando produtividade e crescendo. Os fundamentos permanecem muito fortes. Não existe uma crise de fundamentos do agronegócio. Os números do IBGE deixam essa diferença cada vez mais clara”, avalia o executivo (Globo Rural, 1/9/26)

