Por que o preço dos grãos está em alta no mercado internacional
Conab espera safra recorde de grãos na safra 2026/2027. Foto Werther Santana/Estadão
Aumento da demanda e problemas de oferta impulsionam cotações no mercado internacional, enquanto Brasil inicia plantio de nova safra com expectativa de recorde
Os preços de soja, milho e trigo voltaram a subir no mercado internacional justamente quando o Brasil começa a plantar uma nova safra, com perspectiva de colheita recorde. A reação melhora as referências de venda depois de um período de margens apertadas no campo e ocorre em um momento em que o crescimento do consumo reduz parte da folga deixada pelas grandes colheitas.
No caso da soja, a alta de preços reflete o aumento da demanda. No caso do milho, a produção dos Estados Unidos diminuiu, enquanto o consumo continuou elevado. Já em relação ao trigo, problemas de oferta e restrições ao comércio pelo Mar Negro sustentam as cotações.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta produção recorde de 366,6 milhões de toneladas de grãos no Brasil em 2026/27, alta de 1,4%. A expansão, porém, não significará oferta folgada para atender à demanda. Na soja, a colheita é estimada em 181,64 milhões de toneladas, mas os estoques ao final do ciclo devem cair 32%, de 9,17 milhões para 6,23 milhões de toneladas.
No milho, a produção deve chegar a 148 milhões de toneladas e os estoques recuar de 15,65 milhões para 14,53 milhões de toneladas. “A gente projeta um aumento da demanda maior do que da produção, proporcionalmente”, afirmou o analista da Conab Gabriel Rabello Correa, ao comentar sobre a soja. A companhia estima crescimento de 2,5% no processamento do grão e de 1,5% nas exportações, enquanto a produção deve avançar 0,7%.
Essa mudança também aparece no exterior. A cotação da soja voltou à casa de US$ 13 por bushel na Bolsa de Chicago (CBOT), referência internacional para o produto, depois de ter sido negociada abaixo de US$ 10 por bushel no ciclo anterior. O preço do milho recuperou a faixa acima de US$ 5 por bushel, e o trigo também subiu para mais de US$ 7 por bushel.
Na soja, a melhora ocorreu mesmo com produção elevada nos Estados Unidos. Para o analista da Standard Grain Joe Vaclavik, o comportamento mostra o peso crescente da demanda. “Temos uma base fantástica de demanda doméstica. Estamos esmagando mais soja nos Estados Unidos do que nunca”, afirmou. No fim de agosto, o país havia vendido ao exterior 144% mais que no ano anterior, no melhor ritmo para o período em quatro anos.
A China voltou a comprar soja americana em volumes maiores nas últimas semanas, enquanto o processamento doméstico nos Estados Unidos continua elevado. O aumento do esmagamento reduz o volume disponível para exportação e ajuda a explicar por que as cotações reagiram mesmo sem uma quebra relevante de produção.
No Brasil, o mercado também sente essa disputa maior pelo grão. O Itaú BBA registrou média de R$ 129 por saca de 60 quilos em Sorriso (MT) em agosto, alta de 7,9% ante julho. No Paraná, as cotações passaram da faixa de R$ 120 a R$ 122 entre fevereiro e abril para mais de R$ 140/saca em agosto, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) citados pelo economista agrícola Fred Gale.
No milho, a reação começou por outro caminho. Os Estados Unidos vinham de uma colheita recorde, mas as expectativas para a temporada seguinte diminuíram ao longo dos últimos meses, por causa do tempo quente e seco em junho. Ao mesmo tempo, a demanda por ração, etanol e exportação
Etanol de milho pressiona demanda
O Brasil ganhou importância nessa conta porque utiliza dentro do País uma parcela crescente de sua produção de milho. A Conab estima consumo doméstico de 104,81 milhões de toneladas em 2026/27, alta de 6,7%, ante uma produção apenas 2,8% maior, conforme a estimativa. A indústria de etanol e as cadeias de proteína animal são os principais consumidores.
A XP Research calcula que apenas o uso de milho para etanol cresça cerca de 4,6 milhões de toneladas na próxima temporada, acompanhando expansão superior a 30% da capacidade das usinas. Quanto mais cereal é consumido dentro do Brasil, menor é a quantidade disponível para disputar compradores no exterior.
No trigo, o movimento tem origem mais clara na oferta. O Citi aponta produção menor nos Estados Unidos, problemas climáticos na Europa e riscos para a safra australiana. O comércio pelo Mar Negro é outra fonte de pressão. A Rússia responde por cerca de 20% das exportações mundiais de trigo, e o banco estima que problemas na região possam atrasar ou deslocar o escoamento de 10 milhões a 20 milhões de toneladas.
O Brasil enfrenta, ao mesmo tempo, uma safra doméstica menor. A Conab projeta produção de 5,74 milhões de toneladas de trigo em 2025/26, queda de 27,1%, após redução de 21,2% da área plantada. Preços pouco atrativos no momento da decisão de plantio e custos maiores de insumos pesaram sobre a cultura. “O produtor não foi motivado a plantar trigo nesta safra”, afirmou o gerente substituto de Acompanhamento de Safras da Conab, Marco Antônio Chaves (Estadão, 23/9/26)

