Prisão de condenados por plano de golpe reforça crise política
O presidente da república Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é um octogenário apegado a ideias antigas. Foto Wilton Junior - Estadão
Por William Waack
O traço principal do cenário atual é uma profunda divisão política, que corresponde também a divisões sociais e regionais
Agora que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e os demais condenados pelo STF (Supremo Tribunal Federal) começaram a cumprir penas de prisão, pergunta-se: viramos uma página? Entramos em um novo ciclo histórico e político? A julgar pelo que a política brasileira nos oferece, a resposta, neste momento de enorme carga emocional — para todos os lados —, é “não”.
O traço principal do cenário atual é uma profunda divisão política, que corresponde também a divisões sociais e regionais. O que um lado enxerga como justiça sendo feita, o outro considera um exemplo de injustiça. O que um lado celebra como defesa da democracia, o outro aponta como violação de princípios democráticos. Bolsonaro atrás das grades — ainda que em uma sala especial da Polícia Federal, como foi o caso do presidente Lula (PT) — é um símbolo completamente distinto, dependendo de quem observa.
O que torna esse quadro mais grave é a erosão da legitimidade de instâncias como o Judiciário, às quais, em um mundo ideal, se atribui a função de encerrar capítulos, goste-se ou não do julgamento. Decisões judiciais são hoje frequentemente percebidas como meramente políticas e motivadas por interesses políticos, e não como aplicação da lei, mas como o uso de um instrumento de força — incontestável, como é o caso do Supremo — para beneficiar um lado e perseguir o outro.
O que vem pela frente é difícil de prever, considerando que um dos polos, a esquerda, é conduzido por um octogenário apegado a ideias antigas, enquanto o outro — o de centro-direita — encontra-se em estado de desagregação, sem lideranças abrangentes que ofereçam sentido e direção.
Boa parte do que está acontecendo costuma ser atribuída a tempos excepcionais. Na verdade, a excepcionalidade tornou-se o nosso novo normal (CNN Brasil, 25/11/25)

