04/08/2026

Promessas de eventual Lula 4 são pouco críveis – Editorial Folha

Promessas de eventual Lula 4 são pouco críveis – Editorial Folha
  • Candidatura à reeleição recoloca no centro do debate os impasses da governabilidade e das contas públicas
  • Sem reformas e maior produtividade, intenção de elevar crescimento do país esbarra em restrições fiscais estimuladas pelo governo petista

 

Ao oficializar sua candidatura à reeleição no domingo (2), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) optou por uma coligação restrita aos partidos de esquerda. A escolha delimita com clareza seu campo político e acentua o contraste com um Congresso Nacional de maioria de centro-direita, que tende a manter perfil semelhante após as eleições.

 

Um eventual quarto mandato pode começar com um Legislativo pouco alinhado ao Planalto.

 

Lula afirmou não querer ser lembrado apenas como o "presidente do Bolsa Família" e prometeu enfrentar o poder das emendas parlamentares. A intenção de devolver ao Executivo capacidade de planejamento e investimento é meritória. A promessa, porém, esbarra na realidade.

 

Sem maioria parlamentar e diante de um Congresso fortalecido justamente pelo controle do Orçamento, a disposição de "brigar" pelas emendas soa mais como mote de campanha do que compromisso exequível.

 

No âmbito da política fiscal, o governo passou a admitir um aperto nas regras do arcabouço para conter a deterioração das contas públicas. A intenção seria bem-vinda, não fosse o déficit de confiança. Depois de sucessivas exceções e brechas abertas para ampliar despesas, poucos acreditam que o Executivo esteja disposto a impor limites mais rígidos ao próprio gasto.

 

O desafio central continua sendo, portanto, a economia. Ao fim do atual mandato, Lula terá governado o Brasil por 12 anos, tempo suficiente para que seu legado seja medido também pela capacidade de enfrentar os entraves estruturais ao crescimento. Nesse aspecto, os resultados permanecem bastante modestos.

 

A produtividade brasileira segue estagnada e as contas públicas estão em franca deterioração. Nos 12 meses até junho, o déficit nominal atingiu R$ 1,3 trilhão, o equivalente a quase 10% do PIB. Sob Lula 3, a dívida bruta passou de 71,7% do PIB para 81,9%, alcançando R$ 10,8 trilhões.

 

Essa combinação de dívida crescente e déficits primários, em que há seguidamente despesas maiores do que receitas, mantém os juros elevados e desestimula o investimento produtivo.

 

Forma-se um paradoxo. Enquanto o petista critica a desigualdade social, sua política fiscal a mantém. A conta de juros da dívida destinada a poucos aproxima-se de R$ 1 trilhão neste ano, valor semelhante ao destinado aos benefícios de cerca de 41 milhões de aposentados e pensionistas do INSS. Juros altos encarecem o crédito, reduzem os investimentos e concentram a renda.

 

A recente reforma tributária representou um avanço substantivo que deve melhorar o ambiente de negócios, mas resultou de um longo processo de construção no Congresso, em quase nada dependente do atual governo.

 

Fora isso, Lula pouco avançou em mudanças estruturais capazes de elevar a produtividade e o potencial de crescimento da economia. Depois de 12 anos no poder, promessas já não bastam (Folha, 4/8/26)