09/02/2026

“Punir Quem Produz ou Transformar Riqueza em Nação?

“Punir Quem Produz ou Transformar Riqueza em Nação?

O Agro, os Fundos Patrimoniais e o Futuro do Brasil”. Foto Divulgação

 

Por: Camilo Calandreli

 

Dois Modelos de Estado, Dois Destinos para o Brasil

 

O debate sobre justiça social voltou ao centro da política brasileira com uma promessa sedutora: “taxar os super-ricos”. A ideia, vendida como solução moral e fiscal, sugere que basta apertar o cerco sobre grandes fortunas para financiar o Estado, reduzir desigualdades e melhorar os serviços públicos.

Mas a realidade tem sido outra.

Nos últimos anos, o Brasil assistiu a uma explosão de novos impostos, ampliações tributárias e aumento da carga fiscal indireta, atingindo combustíveis, energia, consumo, investimentos, importações, produção e até atividades de subsistência. A lista é extensa, concreta e pública. O discurso fala em justiça social; a prática revela um Estado que arrecada mais, gasta mais e entrega pouco.

Enquanto isso, países que compreenderam a lógica do capital no século XXI seguem por outro caminho: atraem grandes fortunas, estimulam investimentos privados estruturantes e transformam riqueza em legado permanente por meio dos Fundos Patrimoniais (Endowments).

O Brasil precisa decidir: quer expulsar riqueza ou transformá-la em desenvolvimento nacional?

 

O modelo da esquerda fiscalista: arrecadar sempre, gastar sem limite

 

Governos com viés estatizante e fiscalista partem de uma premissa simples — e perigosa:

o problema do país é falta de imposto.

Nesse modelo, empresários bem-sucedidos, investidores, produtores rurais e grandes patrimônios deixam de ser vistos como agentes de desenvolvimento e passam a ser tratados como alvos fiscais permanentes.

 

O resultado é previsível:

  • aumento contínuo da carga tributária;
  • insegurança jurídica;
  • fuga de capitais;
  • desestímulo ao investimento produtivo;
  • crescimento do gasto público sem eficiência;
  • deterioração dos serviços essenciais.
  •  

Mesmo com recordes históricos de arrecadação, a dívida pública brasileira ultrapassa a casa dos R$ 10 trilhões, sem que saúde, educação, segurança ou infraestrutura acompanhem esse crescimento. O Estado engorda; o cidadão continua pagando — e esperando.

 

O outro caminho: atrair riqueza e convertê-la em legado

 

Países de orientação liberal econômica entenderam algo fundamental:
riqueza não deve ser punida, mas organizada, canalizada e perenizada.

Nos Estados Unidos, os Fundos Patrimoniais são parte estrutural do Estado moderno. Universidades, hospitais, centros de pesquisa, museus, orquestras, fundações sociais e até projetos de segurança e defesa contam com endowments bilionários, geridos profissionalmente, com governança, transparência e metas de impacto social.

 

Alguns exemplos concretos:

 

  • universidades americanas mantêm endowments acima de US$ 30 bilhões, garantindo excelência acadêmica sem depender do orçamento público;
  • hospitais filantrópicos financiam pesquisas, equipamentos e atendimento gratuito com rendimentos permanentes;
  • fundações privadas sustentam políticas sociais de longo prazo, sem aparelhamento ideológico.
  •  

Na Alemanha, Reino Unido, Suíça e países nórdicos, o princípio é o mesmo:
menos punição fiscal, mais estímulo ao investimento estruturante.

 

O que são Fundos Patrimoniais e por que eles funcionam

 

Fundos Patrimoniais — ou endowments — são estruturas permanentes de investimento, formadas por doações privadas, cujo principal não é gasto. Apenas os rendimentos financiam projetos públicos ou de interesse social.

É a lógica da sustentabilidade financeira de longo prazo.

 

Na prática, isso significa:

 

  • previsibilidade orçamentária;
  • autonomia institucional;
  • proteção contra ciclos políticos;
  • foco em resultados, não em narrativas.
  •  

Um fundo bem gerido financia gerações. Um imposto mal desenhado financia apenas o próximo rombo fiscal.

 

O custo invisível da taxação excessiva: a evasão de capitais

 

O Brasil perde bilhões todos os anos com evasão financeira e realocação patrimonial internacional. Grandes fortunas buscam países com:

 

  • estabilidade jurídica;
  • carga tributária previsível;
  • respeito ao patrimônio privado;
  • instrumentos legais de investimento social.
  •  

Esses recursos poderiam estar financiando hospitais, escolas, universidades, teatros, centros esportivos e projetos estratégicos nacionais. Em vez disso, estão gerando emprego, inovação e infraestrutura em outros países.

Não por falta de patriotismo, mas por falta de inteligência institucional.

 

Estimativas de instituições financeiras internacionais, relatórios de bancos centrais e estudos de consultorias globais indicam que mais de US$ 1 trilhão em patrimônio de brasileiros encontra-se atualmente mantido no exterior, estruturado de forma legal por meio de offshores, trusts e holdings internacionais.

Apenas nos últimos anos, a evasão e realocação patrimonial superaram US$ 200 bilhões, movimento impulsionado não por ausência de compromisso com o país, mas pela insegurança jurídica, instabilidade fiscal crônica e pela escalada contínua da carga tributária sobre capital, investimento e produção.

Trata-se de um volume de recursos capaz de financiar centenas de hospitais, universidades, centros tecnológicos, infraestrutura logística e projetos sociais estruturantes dentro do próprio território nacional. O problema brasileiro não é falta de capital — é a ausência de um ambiente institucional capaz de reter, organizar e transformar riqueza privada em investimento produtivo de longo prazo.

 

Se apenas uma fração desse patrimônio hoje mantido fora do país — algo entre 10% e 20% do montante estimado — fosse direcionada a Fundos Patrimoniais nacionais, o Brasil poderia estruturar endowments superiores a US$ 100 bilhões, capazes de gerar rendimentos permanentes entre US$ 4 e 6 bilhões por ano, sem consumo do principal. Esses recursos seriam suficientes para manter:

 

  • Saúde: criação e manutenção de hospitais regionais;
  • Educação: escolas técnicas, universidades e centros de pesquisa;
  • Cultura: teatros, salas de concerto, museus, orquestras, corpos de balé;
  • Esporte: infraestrutura olímpica, formação de atletas, tecnologia esportiva;
  • Assistência Social: programas estruturantes e não assistencialistas;
  • Defesa e Segurança Pública: modernização das Forças Armadas e das polícias;
  • Agricultura: pesquisa, inovação, sustentabilidade e soberania alimentar.
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Não se trata de gasto episódico, mas de financiamento perpétuo do desenvolvimento nacional, blindado de ciclos eleitorais, contingenciamentos e improvisações fiscais.

O Brasil, portanto, encontra-se diante de uma escolha histórica. Ou continuará sendo um país que expulsa riqueza, pune quem produz e financia o Estado pela exaustão do contribuinte, ou terá coragem de inaugurar uma nova arquitetura institucional capaz de transformar capital em civilização.

Fundos Patrimoniais não são privilégios de ricos; são instrumentos de soberania nacional, autonomia social e legado intergeracional. Cada real que foge do país representa um hospital que não nasce, uma escola que não se sustenta, um teatro que fecha, um atleta que não se forma, uma tecnologia que não se desenvolve. A supertaxação empobrece; o investimento organizado constrói.

Está na hora de o Brasil abandonar a política do castigo fiscal e adotar uma política de grandeza — permanente, moderna e nacional — em que o Agro, os empresários e as grandes fortunas sejam aliados do futuro, e não inimigos do Estado. Ou organizamos a riqueza para construir a Nação, ou continuaremos tributando o presente para financiar o fracasso.

 

O chamado: Fundos Patrimoniais como política de Estado

 

O Brasil não precisa de mais impostos.

Precisa de instituições inteligentes, marcos legais modernos e confiança.

Transformar os Fundos Patrimoniais em política pública permanente, com segurança jurídica, incentivos claros e governança profissional, é o caminho para:

 

  • reduzir a dependência do orçamento estatal;
  • elevar a qualidade dos serviços públicos;
  • manter riqueza no país;
  • criar legado intergeracional;
  • unir capital privado e interesse público.
  •  

Punir quem produz riqueza empobrece a Nação.

Organizar essa riqueza constrói civilizações.

O Brasil ainda pode escolher.

 

Sobre o Autor:

 

Camilo Calandreli é gestor cultural especializado em Gestão Pública, ex-Secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura no Governo Bolsonaro, autor de Um Breve Ensaio Sobre a Cultura no BrasilUm Breve Ensaio Sobre a Agricultura no Brasil e Os Cinco Atributos do Cristão na Edificação de Uma Nação.

 

Graduado pela ECA-USP, pós-graduado em Administração e Gestão Pública Cultural (UFRGS), pós-graduação em Gestão Pública, Chefia de Gabinete e Assessoria Parlamentar (PUCRS), Gestão Cultural e Museológica (Universidad Miguel de Cervantes – Sevilla), além de MBA em Política, Estratégia, Defesa e Segurança Pública (ESG/Instituto Venturo) e pós-graduação em Desenvolvimento Nacional, Política e Liderança (ESD). Atuou no Congresso Nacional (2021–2024) no Gabinete da Deputada Federal Carla Zambelli e, desde 2025, é Assessor Parlamentar do Deputado Estadual SP Lucas Bove; 9/2/26)