Qual é a hora de reajustar em reais os preços dos combustíveis?
Reprodução Estadão
Por Celso Ming
Se a guerra se estender, é inevitável que, mais cedo ou mais tarde, a estocada dos preços externos acabe em alguma medida se impondo também aqui dentro.
Com a eclosão da guerra do Irã, as cotações do petróleo no mercado internacional passam por enormes solavancos. Saíram dos US$ 68 por barril em meados de fevereiro, saltaram para perto dos US$ 120 em 9 de março e, agora, tentam se equilibrar em torno dos US$ 90.
O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo consumido no mundo, é a causa imediata dessa ruptura. A escassez vai se aprofundando também porque os consumidores se sentem na necessidade de reforçar os estoques, como acontece também nas temporadas de falta de água. Quando se espalha a notícia de que as torneiras secarão, a população corre para encher banheiras, baldes e as panelas da casa. Assim, aumenta ainda mais a demanda.
Alguns chefes de Estado têm anunciado que, para derrubar as cotações, autorizarão o escoamento para o mercado das suas reservas estratégicas. Mas isso não passa de paliativo que, por sua vez, depende do que acontecerá com a guerra.
O presidente Trump tentou derrubar os preços do petróleo com declarações de que o fim da guerra está próximo. Não dá para confiar na palavra de Trump. Ele tem feito declarações contraditórias em cascata. Já disse que a guerra tem por objetivo mudar o regime do Irã e sepultar definitivamente seu programa nuclear. Não há sinal de que essas metas estejam próximas.
Disse, também, que, para parar com as hostilidades, exigirá rendição incondicional do governo do Irã, o que também não está à vista. Já sugeriu que se contentaria com a destruição dos lançadores de mísseis e de outras instalações militares do Irã...
Enfim, não se sabe o que Trump quer dessa guerra nem sua duração. E, sem esses elementos, não dá para montar a equação sobre a trajetória dos preços do petróleo.
Se as hostilidades durarem alguns meses, o estrago não se limitará à desorganização do mercado de petróleo e seus derivados. Deverá estender-se para o custo de vida com o encarecimento do transporte, das companhias aéreas e para problemas de suprimento de mercadorias essenciais, como fertilizantes. Enfim, a crise do petróleo tende a produzir impactos sobre os fluxos comerciais e sobre parte das cadeias de produção e distribuição.
Alguns analistas vêm afirmando que, na condição de importante exportador de petróleo, o Brasil será beneficiário líquido dessa crise. Em parte isso é verdade.
No entanto, se a guerra se estender, é inevitável que, mais cedo ou mais tarde, a estocada dos preços externos acabe em alguma medida se impondo também aqui dentro, como até mesmo o presidente Lula já admitiu.
Nesse caso, seria melhor reajustar em reais os preços dos derivados o quanto antes, do que fazê-lo mais perto das eleições e, com isso, perder arrecadação com dividendos e royalties. O efeito sobre a inflação e sobre os juros não pode ser desprezado (Estadão, 12/3/26)

