16/03/2026

Raízen e Pão de Açúcar mostram efeitos deletérios dos juros–Editorial Folha

Raízen e Pão de Açúcar mostram efeitos deletérios dos juros–Editorial Folha
  • Pedidos de recuperação extrajudicial sinalizam que Selic elevada transforma desequilíbrio em crises agudas
  • Valores em negociação chegam a R$ 103,3 bi; gasto público cria impressão de vigor econômico, mas pressiona inflação e política monetária

 

Não deixa de ser um paradoxo que o país mantenha indicadores de demanda e emprego relativamente firmes —sustentados por expansão fiscal persistente e medidas de estímulo— enquanto disparam o número e o volume de pedidos de recuperação extrajudicial e judicial de empresas.

 

Em 2025, houve 68 recuperações extrajudiciais, envolvendo um total de R$ 15 bilhões. O movimento ganha agora contornos mais dramáticos com operações de grande porte. Neste ano, os valores em negociação já chegam a R$ 103,3 bilhões, dos quais R$ 98 bilhões decorrem apenas da Raízen, uma joint venture entre Cosan e Shell, maior empresa de biocombustíveis do país.

 

Desse valor, R$ 65 bilhões se referem a dívidas financeiras, o maior volume já registrado nessa modalidade no Brasil. A empresa enfrentou queima de caixa expressiva e perdas em investimentos. Endividada e enfrentando juros elevados, busca agora reestruturar obrigações.

 

O plano, com adesão inicial relevante, mira conclusão em 90 dias, na tentativa de preservar operações, fornecedores e empregos.

 

Outro caso é o do Grupo Pão de Açúcar, que anunciou recuperação extrajudicial envolvendo R$ 4,5 bilhões em dívidas. Os problemas de maior porte decorrem, em boa medida, de decisões estratégicas equivocadas —expansões agressivas, apostas em commodities voláteis ou investimentos de longo prazo sem colchão adequado— e riscos inerentes aos negócios.

 

Fato é que a taxa básica de 15% ao ano, decorrente da gastança do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), amplifica o custo financeiro e encurta o horizonte para correção de erros, transformando desequilíbrios gerenciáveis em crises mais agudas.

 

O país aparenta um certo vigor econômico graças ao expansionismo fiscal e a inúmeras iniciativas de suporte ao consumo e ao crédito público. Esse modelo cobra preço, entretanto, na forma de inflação persistente e juros elevados, que deságuam precisamente em inadimplência de pessoas físicas e empresas.

 

Os episódios também preocupam porque vão além da renegociação com investidores e bancos: envolvem fornecedores, clientes e cadeias produtivas.

 

Investidores afetados por sucessivas perdas tendem a maior conservadorismo, o que eleva o custo de capital —um ciclo vicioso que encarece ainda mais o financiamento privado, enquanto Palácio do Planalto e Congresso se concentram somente em estímulos de curto prazo.

 

Esse descasamento não é sustentável e resultará em maior estresse empresarial e menor crescimento econômico. Sem ajuste fiscal consistente e realinhamento da política monetária, a conta virá na forma de erosão produtiva do setor privado e, na pior hipótese, de mais inflação (Folha, 14/3/26)