17/08/2026

Sem-vergonha: Centrão 'lulou' em busca de sobrevivência política

Sem-vergonha: Centrão 'lulou' em busca de sobrevivência política

Por Paula Sousa

 

O espetáculo da política brasileira atingiu o grau máximo de cara de pau. Sem o menor pudor, os caciques do Centrão rasgaram as fantasias de "oposição responsável" e pularam de cabeça no colo de Luiz Inácio Lula da Silva. Gilberto Kassab, Hugo Motta e Davi Alcolumbre escancararam as portas do armário e gritaram ao país que o sistema é um puxadinho permanente do lulismo quando o calo do poder aperta.

 

A mais recente sinfonia dessa comédia pastelão foi regida por Gilberto Kassab, presidente do PSD. Em jantar com empresários em Higienópolis, organizado por Andrea Matarazzo, o operador soltou o veneno. A matéria da Gazeta do Povo cravou a manchete que fez os bastidores tremerem:

 

"Kassab diz que chance de Flávio Bolsonaro se eleger é ‘zero’”.

 

O cacique prometeu que Flávio vai despencar assim que a campanha começar e o PT expor quem está ao seu redor.

 

"Na hora em que o jogo começar, em que o PT mostrar quem é o Flávio, as pessoas no entorno dele, ele vai desabar... A chance de ele se eleger é zero."

— Gilberto Kassab, em evento com empresários.

 

Humilhação pública e a chapa de fachada

 

Qual é a mágica por trás desse sincericídio? Como escancarou o jornalista Claudio Dantas no programa ALive, a cena beira o ridículo. Kassab é pré-candidato a vice-presidente na chapa do governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Como é que o cara é vice de uma chapa de oposição e declara num evento chique que o Centrão "é Lula"? É a humilhação perfeita!

 

Como perguntou Dantas: ele quer eleger Caiado ou Lula? A resposta é simples: a candidatura de Caiado é pura farsa, criada para tirar votos da direita, sangrar Flávio Bolsonaro e entregar o Planalto de bandeja ao PT.

 

A hipocrisia ganha contornos quando resgatamos a memória digital. Ronaldo Caiado usou o Twitter em 12 de janeiro de 2015 para disparar a seguinte bomba contra o atual sócio:

 

@RonaldoCaiado (12/01/2015): "Kassab é o cafetão do Planalto. Agiu assim com o PSD e agora com o PL."

 

É o puríssimo "Efeito Alckmin"! Lembra de Geraldo Alckmin jurando que Lula queria voltar à cena do crime para depois virar seu vice adorador? Na política do Centrão, o "cafetão" de ontem vira o noivo de hoje no altar da conveniência. O apetite por cargos limpa qualquer biografia.

 

Pavor das Algemas: A Sujeira no STF

 

A podridão desse casamento arranjado vai além do balcão por tempo de TV. Há um pavor paralisante nos gabinetes: o medo da cadeia. O Centrão não apoia Lula por amor. Mas sabem que Flávio Bolsonaro no Planalto significaria o fim do balcão de negócios e o corte das verbas públicas.

 

Pior: a sujeira acumulada pelos líderes do estamento — em escândalos como o Banco Master, fraudes no INSS e mutretas orçamentárias veladas — repousa nas gavetas dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) indicados pelo PT. Se o Centrão desafiar o governo, a Polícia Federal bate à porta da cúpula do Congresso antes do café da manhã. O apoio a Lula é a apólice de seguro contra a prisão preventiva.

 

O coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), reagiu no Twitter denunciando que o PSD tem três ministérios no governo e atua como "linha auxiliar" para salvar o PT. Reportagens do O Globo (por Vera Magalhães), da Veja, do Correio Braziliense, do Estadão (perguntando se o Centrão "Lulou") e do portal de esquerda Vermelho celebraram que os caciques dão a vitória de Lula como certa. Mas Marinho cravou:

 

"As máscaras caíram porque o sistema se uniu por pânico da direita antissistema, mas esqueceram de combinar com o povo.

 

Síndrome do curral e pânico do voto

 

A situação de Hugo Motta (Republicanos) e Davi Alcolumbre (União Brasil) expõe o desespero do fisiologismo. Hugo Motta, na presidência da Câmara, fez estragos para agradar ao Planalto: travou a dosimetria, aprovou a Lei Felca e viabilizou pautas arrecadatórias de Lula. Resultado? Queimou-se com o eleitorado conservador.

 

Sabendo que em Patos e na Paraíba ele não arruma mais votos da direita, restou rastejar atrás dos votos da esquerda e da máquina federal.

 

Presidentes da Câmara e do Senado costumam vir do Nordeste ou Norte — como Alcolumbre no Amapá —, onde o coronelismo troca votos por reformas, dentaduras e favores. No Sul e Sudeste, vigora a "Síndrome de Rodrigo Pacheco": o ex-presidente do Senado virou figura tão abominada em Minas Gerais que não se elege nem para síndico. Como a informação descentralizada da internet está destruindo o voto de cabresto, Hugo Motta teme o mesmo fim humilhante de Pacheco. Já Alcolumbre, garantido no Senado até 2030, corre para Lula com medo de o PL fazer maioria e frustrar seu sonho de comandar a Casa.

 

O sistema entregou o jogo ao adversário

 

Sentindo o golpe, Kassab tentou um recuo estratégico em nota divulgada sob a manchete: Kassab agora diz que “neutralidade favorece o PT”. Alegou que o PT deseja enfrentar Flávio por achá-lo "fácil de bater", usando a pesquisa Quaest — que mostrou Lula com 43% e Flávio com 40% em segundo turno, em empate técnico — para tentar vender Caiado como alternativa.

 

Que piada! O tiro do Centrão saiu pela culatra. Ao confessar sem pudor que o PSD, os herdeiros do cadáver do PSDB e o estamento inteiro estão fechados com Lula, Kassab e sua turma prestaram um favor inestimável ao adversário.

 

Como concluiu Claudio Dantas, eles entregaram o jogo e deixaram o caminho livre para Flávio Bolsonaro se consolidar como o único candidato antissistema. O cidadão agora enxerga a realidade: de um lado, a quadrilha unida ao PT para fugir da cadeia e manter os cargos; do outro, a única oposição disposta a enfrentar o mecanismo.

 

Sobre a autora:

 

Paula Sousa é historiadora, professora com 8 anos de docência nas áreas de Humanas e pós-graduada em Gestão Pública. Com especializações que vão do Processo Legislativo e Finanças à Inteligência Artificial Generativa, é articulista e roteirista focada em geopolítica, história e socioeconomia — com produções para veículos como o Visão Libertária. É também palestrante e membro do Instituto Cultural Voluntários pelo Brasil (17/8/2026)