Soja é mais sensível do que o milho em conflitos geopolíticos
Acero Agronegocios- Reprodução
Por Mauro Zafalon
- Cereal, com produção mais pulverizada, tem possibilidade maior de substituição
- Guerra preocupa não pelo que já fez, mas pelo que virá pela frente, diz analista
O preço da soja é mais sensível do que o do milho em tempos de conflitos geopolíticos. Nem por isso, a alta de preços é garantia de renda aos produtores. É o que mostram os efeitos da guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã, segundo Daniele Siqueira, analista da AgRural.
Os números de estoques mundiais corroboram essa afirmação. Mesmo com estoques bem superiores nesta safra do que em 2022, durante a invasão da Ucrânia pela Rússia, a soja sobe mais do que o milho. A relação de consumo e estoques mundiais da soja nesta safra 2025/26 é de 30%, acima dos 26% de 2021/22, mostrando uma folga maior. Em volume, as reservas mundiais da oleaginosa somam 125,3 milhões de toneladas, acima dos 93,5 milhões do início do conflito entre Rússia e Ucrânia.
Mesmo com estoques maiores e safra recorde na América do Sul, os preços saíram de US$ 10,6425 por bushel (27,2 kg), no final de janeiro, para R$ 11,7075, um dia antes do início da guerra, e ficaram em US$ 11,7375 nesta quinta-feira (27).
Já os preços do milho, apesar dos estoques mundiais menores, não se mantiveram, e recuaram após altas iniciais. No final de janeiro, o primeiro contrato era cotado a US$ 4,2825 por bushel (25,4 kg), em Chicago; estava em US$ 4,4850 antes da guerra, mas, após atingir até US$ 4,76 em 9 de março, recuou para US$ 4,67 nesta quinta-feira (26). Os estoques mundiais de milho correspondiam a 27% do consumo, em 2022, e agora estão em apenas 23%, o menor desde a safra 2012/13. Mesmo assim, os preços não reagiram.
Os motivos, segundo Daniele, é que "a produção e a demanda da soja são mais concentradas, e a substituição mais difícil". No caso do milho, a produção é mais pulverizada, e a substituição por outro produto, mais fácil. Em uma oferta menor, o cereal pode ser substituído por sorgo, trigo de menor qualidade e outros farelos.
Uma evolução nos preços da soja nesses períodos, no entanto, nem sempre é garantia de maior renda para o produtor. Antes da guerra no Oriente Médio, a saca valia R$ 116,50 em Cascavel (PR), e está agora em R$ 119. A tonelada de soja brasileira colocada na China estava em US$ 461,50, em 27 de fevereiro, subindo para os atuais US$ 477,5.
Daniele diz que o preço da oleaginosa subiu no porto brasileiro, mas os custos internos da logística praticamente anularam os ganhos dos produtores, que não tiveram a correção obtida pela commodity na Bolsa de Chicago.
Para a analista, os efeitos imediatos do conflito atual são bem diferentes dos do anterior, quando houve uma alta acelerada de preços. Rússia e Ucrânia são produtoras, e a guerra mexeu com oferta e demanda. A guerra do Irã, no entanto, poderá ser muito pior do que a da Ucrânia e Rússia.
A atual não afeta diretamente a oferta de produtos, mas traz custos de produção e de transportes que vão mexer com o mercado mais adiante. Os custos sobem em um momento em que a renda dos produtores está muito apertada. O resultado pode ser uma área menor de produção ou um uso menor de insumos, o que resultará em queda de produção mundial, segundo Daniele.
"A situação atual é mais delicada não pelo que aconteceu até agora, mas pelo que poderá ocorrer lá na frente", afirma. Poderá haver oferta menor de produtos, devido à redução de área, e queda de demanda, no caso de uma aceleração de preços.
TRUMP ENTRE A ENERGIA RENOVÁVEL E A FÓSSIL
Donald Trump se encontra nesta sexta-feira (27) com produtores rurais, um dos seus principais grupos de apoio. O que eles querem, no entanto, é exatamente o contrário do que quer o outro poderoso grupo apoiador do presidente americano: a indústria petrolífera.
Trump trouxe uma situação bem difícil para os agricultores americanos, já no seu primeiro mandato. Em um período de preços baixos e de custos elevados da produção, ele fez o produtor dos Estados Unidos perder participação no mercado externo. O cenário ficou complicado internamente, e os agricultores partem para a quarta safra com possibilidade de perda de renda.
Um alívio para o setor seria um avanço na política de utilização de energia renovável com a utilização de produtos agrícolas. De outro lado, no entanto, está a indústria petrolífera que não quer perder participação nesse mercado energético.
A mistura de etanol de 15% à gasolina durante o ano todo, pleiteado pelos produtores, geraria um consumo anual de 61 milhões de toneladas de milho a mais do que já é consumido. Atualmente, os americanos já usam um terço da produção nas usinas de etanol. Na safra anterior, os americanos produziram 432 milhões de toneladas.
O aumento da mistura de biodiesel e de diesel verde também aliviaria a situação dos produtores de soja. A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) tem um plano de o país utilizar 21,2 bilhões de litros de biodiesel e de diesel renovável no sistema de combustíveis. Se aprovado, o programa aumenta em 67% a mistura de biodiesel e de diesel renovável, em relação ao patamar atual, elevando o esmagamento de soja.
Trump, mais amigo do combustível fóssil do que do renovável, vai precisar de muita conversa para equilibrar as duas propostas contrárias de seus principais apoiadores (Folha, 27/3/26)

