STF deve blindar Moraes de investigação, diz especialista
'Ainda não vi ministros do Supremo perderem nada em qualquer cenário', afirma Ivar Hartmann, doutor em Direito e professor associado do Insper. foto reprodução Alex Silva - 30.jul.25 Estadão Conteúdo
A imagem de um Supremo Tribunal Federal (STF) neutro e distante da política já não se sustenta há muito tempo, na opinião de Ivar Hartmann, doutor em Direito e professor associado do Insper.

'Ainda não vi ministros do Supremo perderem nada em qualquer cenário', afirma Ivar Hartmann, doutor em Direito e professor associado do Insper. Foto Divulgação
Por isso, conclui, o tribunal já não tem "nada a perder" com o impacto do caso Master em sua imagem pública — mesmo que seu Plenário eventualmente decida por rejeitar que o ministro Alexandre de Moraes seja formalmente investigado pela Polícia Federal.
Em um relatório da Polícia Federal (PF) cujo sigilo foi retirado nesta terça-feira (01/09), Moraes aparece como possível interlocutor do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master que está preso.
Nos diálogos, Vorcaro teria pedido a Moraes que interferisse em seu favor junto ao diretor da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet. Também teria discutido antecipadamente uma possível operação da PF que poderia atingi-lo.
A retirada do sigilo do relatório da PF foi solicitada pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF.
"Eu não acho que essa crise pode gerar qualquer perda para o tribunal como instituição ou para os ministros individualmente. Nem mesmo para ministro Alexandre de Moraes", avalia Hartmann, que foi coordenador do projeto Supremo em Números quando era pesquisador da FGV Direito Rio.
"Eu ainda não vi ministros do Supremo perderem nada em qualquer cenário."
Para o professor, mesmo em um cenário de vitória de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial, Moraes e outros ministros ainda estariam blindados de impeachments devido ao "arranjo institucional" que vincula os interesses de senadores e de integrantes da Corte.
O ministro André Mendonça pediu que a situação de Moraes seja avaliada pelo Plenário do STF em uma sessão aberta e "transparente" — onde Hartmann acredita que o corporativismo vai prevalecer.
"Por mais que existam fatores aparentemente inéditos aqui, elementos chocantes, eu continuo muito cético de que o uma maioria do plenário Supremo votaria para autorizar a abertura de investigação ou formalizar que a investigação já em curso passe a ser sobre o ministro Alexandre de Moraes", avalia o professor, que faz pesquisas sobre o STF há mais de dez anos.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista.
BBC News Brasil - O ministro André Mendonça retirou o sigilo do relatório da PF que implica o ministro Alexandre de Moraes, mas ele não tinha feito isso anteriormente com um outro relatório envolvendo o ministro Dias Toffoli, também no âmbito do caso Master. Isso revela uma animosidade de Mendonça em relação a Moraes?
Ivar Hartmann - Não acho que a remoção do sigilo, isoladamente, é necessariamente um elemento de animosidade. Dependendo do objetivo do Mendonça, sim, mas ela poderia ser também o contrário de animosidade.
Ou seja, poderia ser pior para algumas das pessoas envolvidas que o sigilo não fosse removido, que o acesso fosse mais difícil e que o sigilo fosse removido mais na frente, depois que mais coisa está inserida nos autos.
A gente não sabe o que tem pela frente daqui a duas semanas, daqui a um mês. Quantas vezes surgiram revelações e aconteceram coisas que pegaram a gente de surpresa, mas pessoas no alto escalão já tinham aquela informação há mais tempo.
BBC News Brasil - Mas de toda forma, essa retirada do sigilo não rompe com um corporativismo do STF?
Hartmann - O corporativismo dos ministros do Supremo não envolve a ausência de ataques e a impressão pública de paz entre eles, de concordância entre eles.
Parte do corporativismo que é central no Supremo é: se a gente olha para as decisões sobre processos e sobre méritos dos casos, ali a gente não vê uma decisão cujo efeito é a erosão de poder individual [de cada ministro]. Eles se protegem assim. Esse é o corporativismo.
BBC News Brasil - Discordâncias verbais, leituras diferentes sobre processos judiciais são algo bem diferente de você abrir o sigilo de uma investigação que expõe um outro ministro. Não me recordo de nenhum outro caso assim.
Hartmann - Mas o que tem de inédito aqui é a investigação da PF sobre o ministro. Isso é o mais raro, e não a decisão sobre a publicidade de um processo ser tomada com um efeito que é ruim para um dos ministros.
Não é como se a gente tivesse a informação de que existem dezenas de investigações tendo por alvo um ministro do Supremo, e aí só nesse caso [Master] o sigilo foi levantado. Quantos casos existiram de um ministro do Supremo sendo efetivamente investigado nos últimos cinco anos? Tem o caso do Toffoli, mas qual mais?
Os últimos dias estão indicando que o ministro Mendonça quer que seja levado ao plenário essa discussão sobre se o ministro Alexandre de Moraes vai ser investigado formalmente ou não. Vamos ver se isso realmente vai ser submetido ao plenário. Vamos ver se a discussão vai ser pública. Vamos ver se a decisão vai ser sigilosa ou pública. E vamos ver qual vai ser a decisão.
Por mais que existam fatores aparentemente inéditos aqui, elementos chocantes, eu continuo muito cético de que o uma maioria do plenário Supremo votaria para autorizar a abertura de investigação ou formalizar que a investigação já em curso passe a ser sobre o ministro Alexandre de Moraes.
Tenho muita dificuldade de ver isso acontecendo, porque esse sim acho que é o corporativismo no tribunal.
BBC News Brasil - Necessariamente é um cenário de derrota para o Supremo? Porque se rejeitar uma investigação contra Moraes, a imagem pública do STF fica prejudicada. Mas se aceitar, há uma crise interna.
Hartmann - Acho que uma coisa é dizer: "Qualquer que seja o resultado, o Supremo não vai se beneficiar."
Uma outra coisa muito diferente é dizer que o Supremo vai perder.
Eu ainda não vi ministros do Supremo perderem nada em qualquer cenário.
O que o Toffoli perdeu? Ele foi removido, ele foi "impichado"? Onde que está a derrota? Onde que está a redução de poder?
Redução de prestígio, sim.
Mas será que os ministros ainda estão preocupados com o que a opinião pública pensa sobre Toffoli, pensa sobre Alexandre de Moraes, pensa sobre Mendonça?
Faz muito tempo que são criticados, faz muito tempo que decisões suas são consideradas absurdas. Eles estão aí.
BBC News Brasil - Pedidos de impeachment e projetos no Legislativo querendo limitar os poderes e mandatos de ministros do STF não são uma ameaça real a eles?
Hartmann - Quantas vezes já apareceu projeto de limitar mandato? Nunca andou.
BBC News Brasil - Isso não seria mais possível num eventual governo de Flávio Bolsonaro?
Hartmann - [Jair] Bolsonaro não fez nada [concreto nesse sentido] em quatro anos. Por que é que o Flávio vai fazer?
BBC News Brasil - Mas desde então, Jair Bolsonaro foi preso por decisão de Alexandre de Moraes.
Hartmann - Eu diria que a probabilidade continua sendo a mesma de um ministro sofrer um impeachment de quando Jair Bolsonaro era presidente.
BBC News Brasil - Por quê?
Hartmann - Foro privilegiado. Os mesmos senadores que votariam o impeachment são senadores que são investigados e processados pelo Supremo. Esse é o arranjo institucional que mantém esse equilíbrio há muito tempo.
Enquanto esse arranjo estiver em vigor, enquanto existir essa latitude bem grande que o Supremo tem, seja de julgar e processar, de atuar no foro privilegiado...
Enquanto existir essa latitude do Supremo, eu não consigo ver nenhum ministro do Supremo sofrendo impeachment e não consigo ver os poderes individuais dos ministros do Supremo sendo externamente restringidos.
BBC News Brasil - Nem em um caso revelador e inédito como o de Moraes?
Hartmann - Não faz nem cócegas. Acho que os ministros têm essa segurança, eles sentem essa segurança.
O Alexandre Moraes nunca achou que seria um problema o contrato multimilionário da esposa. Ele sempre se sentiu seguro de que isso ia se tornar público e não ia acontecer nada. De fato, não aconteceu nada, né?
A maioria dos brasileiros achou aviltante quando a informação sobre esse contrato veio à tona. Mas não aconteceu nada.
Acho que o STF não vai perder absolutamente nada [após o caso Master].
Em termos da sua imagem, ele não tem mais nada a perder. A imagem de que é neutro, de que evita politizar as questões... Não tem mais nada a perder.
Eu não acho que essa crise pode gerar qualquer perda para o tribunal como instituição ou para os ministros individualmente. Nem mesmo para ministro Alexandre de Moraes.
BBC News Brasil - Mesmo com esse quadro grave que você está desenhando para a Corte, tem esperança de reformas no STF?
Hartmann - Eu tenho esperança nessas reformas. O problema é que essas reformas passam por votações e precisam de apoio de muita gente no Congresso. E essas pessoas estão na mão dos ministros do Supremo por causa do foro privilegiado.
Hoje, a única forma de punição ou de reconhecimento de que um ministro do Supremo fez algo errado é só o máximo do impeachment. Não tem meio termo.
Ou ele é invulnerável, ou é a solução "nuclear" do impeachment. Não tem gradação, não tem nada no caminho.
Nesse cenário, eu acho que o único caminho viável de a gente ver mudanças em relação à instituição é um ministro do Supremo sofrer impeachment. Se isso acontecer, eu acredito que nós vamos ver mudanças.
Óbvio que o impeachment de ministro pelas razões erradas vai trazer o tipo de consequência que a gente não quer. Então não dá para dizer, se acontecer o impeachment de ministro, necessariamente a gente vai ficar melhor do que está hoje.
Dependendo das razões do impeachment, pode ser que a gente fique pior.
Mas mesmo um impeachment com as piores razões possíveis, ele ainda traria um silver lining [expressão em inglês que indicam que toda situação, inclusive as ruins, têm um lado positivo]. Quer dizer, ele pode ser 95% ruim, mas ele ainda traria necessariamente aquele 5% positivo de quebra dessa lógica de que o ministro do Supremo pode fazer o que ele quiser e não responde a ninguém.
BBC News Brasil - A possibilidade de um Código de Conduta, que vem sendo defendida por alguns integrantes do STF, inclusive pelo presidente da Corte Edson Fachin, é uma proposta convincente de real mudança, ou apenas uma solução de fachada?
Hartmann - Acho que se fosse um arremedo de solução, uma coisa de estão jogando para a plateia, já teriam aprovado esse código e ele já existiria. Para mim, um indício de que é não é algo pro forma, de que não é inofensivo para os ministros, é justamente o fato de que ele está dividindo o tribunal.
Existem ministros que estão enxergando uma ameaça ao seu poder e por isso que o tribunal está dividido em relação a isso. Acredito que o ministro Fachin tem boas intenções.
BBC News Brasil - A oposição entre Moraes e Mendonça é impulsionada também por fatores políticos, já que Moraes se tornou alvo de bolsonaristas e, ao mesmo tempo, Mendonça foi indicado por Jair Bolsonaro como ministro do STF. Essa indicação pode estar pesando nas decisões de Mendonça no caso Master?
Hartmann - Essa ideia de que um ministro demonstra fidelidade em relação a quem o indicou, ela já morreu há muito tempo. Ela é muito sedutora, mas ela já morreu há muito tempo.
O exemplo acho que mais contundente disso é [ex-ministro do STF] Joaquim Barbosa no Mensalão.
Se a gente for olhar o período mais recente, talvez o maior aliado do ministro André Mendonça nessa linha de se "algo de errado aconteceu, precisa ser investigado" talvez seja o ministro Fachin, que não foi uma indicação do Bolsonaro [o ministro Edson Fachin foi indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff, do PT].
A expectativa seria de que o Fachin fosse contra o Alexandre de Moraes ser investigado. Mas talvez ele seja, nesse momento, o maior aliado do André Mendonça. Então essa coisa de lealdade do ministro [ao grupo político que o indicou] a gente nunca viu se provar nos dados (BBC News Brasil, 3/9/26)
Master: O que pode acontecer com Alexandre de Moraes, do STF

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal – STF. Foto Marcelo Camargo/Agência Brasil
As revelações na terça-feira (01/09) sobre os vínculos entre o antigo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), caíram como uma bomba em Brasília.
O magistrado poderia se tornar o primeiro investigado na história do tribunal. Enquanto isso, a oposição renova pedidos de impeachment no Congresso, e parte da classe política e da imprensa defende que ele renuncie.
A origem da crise está em documentos da Polícia Federal (PF) que expuseram diversas interações entre Moraes e Vorcaro. As mensagens levantam a suspeita de que o ministro tenha agido para favorecer o seu interlocutor, incluindo no clímax da crise envolvendo o esquema de fraudes do Master.
O ex-banqueiro, dois dias antes de ser preso, teria discutido com o ministro a possibilidade de ele ser alvo de uma operação da PF. Os dois teriam também se encontrado pelo menos seis vezes. Além disso, Moraes teria atuado na redação de contratos milionários com o escritório de advocacia da sua esposa, Viviane Barci de Moraes.
PGR pediu anulação do relatório
Relator do caso Master no STF, o ministro André Mendonça, que tornou os documentos da PF públicos na terça-feira, pediu que o caso siga para o plenário do Supremo, a fim de que os ministros analisem as novas evidências. Cabe ao presidente da corte, Edson Fachin, agendar uma sessão presencial.
Mendonça também determinou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) analisasse as descobertas da PF e a possibilidade de abertura de uma investigação contra Moraes.
Mas o procurador-geral, Paulo Gonet, que é também citado nas conversas, pediu a anulação do relatório, argumentando que Mendonça, enquanto magistrado, não tinha competência para encomendar uma investigação da PF na fase pré-processual. Mesmo que ele encontrasse indícios de irregularidade por Moraes, ele deveria ter consultado o plenário do STF, acrescentou o procurador.
Segundo a Folha de São Paulo, Mendonça deu a ordem que resultou no relatório durante uma reunião surpresa da semana passada com membros da PF.
STF discutirá investigação
Caso o tribunal decida seguir adiante, Moraes será incluído na lista de investigados no inquérito sobre o caso Master. Seria a primeira vez que um ministro do STF seria investigado na história do tribunal.
Pela Constituição e pelo regimento interno do Supremo, cabe ao tribunal processar julgar os seus membros por crimes comuns. Neste caso, a PF conduziria a investigação sob a supervisão de um relator do STF, definido por sorteio entre um dos dez colegas de Moraes.
Normalmente, a participação da PGR é tida como necessária. Mas, desta vez, a sessão do plenário do STF deverá ser agendada independentemente da manifestação de Gonet.
A eventual abertura de uma investigação, entretanto, não implicaria no afastamento imediato de Moraes. Só a Procuradoria poderia mais adiante oferecer uma denúncia contra o magistrado – ou, então, pedir o arquivamento do caso.
A falta de precedentes gera incerteza sobre os próximos passos, considerando que estão implicados no caso Master outros ministros do STF e o chefe da PGR.
Movimentação no Senado
Enquanto isso, no Congresso, deputados e senadores defenderam investigações e o afastamento de Moraes.
No Senado, Carlos Viana (PSD-MG) protocolou um pedido pelo impeachment do ministro, afirmando enxergar possível crime de responsabilidade por Moraes. Outros senadores que saíram contra Moraes incluíram Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é candidato à Presidência nas eleições deste ano e também está envolvido no caso Master, Alessandro Vieira (MDB-SE), Damares Alves (Republicanos-DF) e Magno Malta (PL-ES).
Crimes de responsabilidade são condutas de natureza política, cometidas por autoridades que ameacem a Constituição, a União, o funcionamento dos Poderes, os direitos políticos e a segurança interna, entre outros. Nestes casos, a investigação cabe ao Senado, podendo resultar na perda do cargo ou na inelegibilidade.
"É um pedido de investigação por suspeita de advocacia administrativa, uso da toga para defender um banqueiro com corrupção. Se toda essa conversa ficar comprovada, são ações tomadas usando a toga em benefício de outrem, o que a Constituição não permite," disse Viana à imprensa.
No caso dos ministros do STF, os crimes de responsabilidade previstos são de cinco tipos, segundo a legislação, incluindo "proceder de modo incompatível com a honra, dignidade e decoro de suas funções".
A expectativa, entretanto, é que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não paute o impeachment. Ele não comentou o caso de Moraes ao ser questionado por jornalistas na terça-feira. Mas disse que "não é normal" que haja 109 solicitações de impeachment no Congresso contra dez ministros do STF.
Um levantamento do JOTA concluiu que chegam agora a 67 as petições pelo afastamento de Moraes no Senado, alavancadas sobretudo por parlamentares bolsonaristas (DW, 2/9/26)
Número usado como contato de Moraes aparece ligado a contas digitais no TikTok e aplicativos de celular

Foto Wilton Junior/Estadão
Um número de telefone atribuído ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes em registros extraídos do celular do ex-controlador do Banco Master Daniel Vorcaro também aparece associado a contas digitais identificadas com o nome do ministro, segundo apurou a BBC News Brasil.
O relatório da PF, de mais de 200 páginas, não afirma explicitamente que o número pertencia a Moraes.
O material, tornado público na terça-feira (1/9) por decisão do ministro André Mendonça, indica que Vorcaro teria tratado com esse contato de informações relacionadas à Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, além de medidas que poderiam afetar sua prisão preventiva.
Ao longo do documento da PF, o nome do ministro aparece entre aspas, em referência a como estava registrado na agenda de Vorcaro, e as conversas são descritas como "possíveis interações" entre os dois. No aparelho, segundo o relatório, Vorcaro mantinha quatro registros relacionados ao mesmo número: "Alexandre de Moraes BRASILIA", "Novo", "STF TSE NOVO" e "Eu STF".
Segundo a Polícia Federal, os contatos foram compartilhados pelo ex-ministro Fábio Faria em uma conversa no WhatsApp, em 26 de dezembro de 2023, e posteriormente armazenados por Vorcaro no celular.
A perícia, no entanto, recuperou apenas mensagens enviadas por Vorcaro. As respostas que teriam sido encaminhadas pela outra parte da conversa não foram obtidas (entenda melhor abaixo).
Contas associadas ao número
Para verificar as associações digitais, a BBC News Brasil submeteu o número que aparece ligado ao ministro no relatório à OSINT Industries, uma plataforma europeia usada em investigações digitais.
O serviço faz buscas em diferentes bases de dados para identificar vínculos entre números, contas, nomes de usuário e serviços online.
"Osint" é a sigla em inglês para inteligência de fontes abertas, método que consiste em reunir e analisar informações disponíveis publicamente, sem acessar dados privados ou invadir sistemas.
No caso analisado, foram encontradas quatro associações.
No TikTok, o número atribuído a Moraes aparece vinculado a um perfil identificado como "Xandao". A conta foi criada em 2024 e não registra atividade posterior ao cadastro, segundo a plataforma de verificação.
O perfil tem três seguidores e segue apenas uma conta, de uma filha do ministro. Em verificação feita diretamente no aplicativo, a BBC News Brasil constatou que Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, e a mesma filha estão entre os seguidores. O perfil permanecia no ar até a publicação desta reportagem.
A BBC News Brasil confirmou ainda que o perfil de Viviane Barci que segue a conta de Moraes também está associado ao número de telefone que aparece no relatório da PF como pertencente a ela. A associação foi identificada por meio de uma busca pelo número de Viviane no mesmo serviço.
A consulta também localizou o número atribuído a Moraes em três serviços de identificação e busca reversa de telefones: SimplerMe, Calling App e Truecaller. Nos três, o telefone apareceu associado ao nome "Min. Alexandre de Moraes". A mesma busca foi repetida em outro site semelhante, o que resultou nas mesmas informações.
Essas plataformas permitem pesquisar números para verificar possíveis vínculos com nomes, contas ou registros disponíveis em suas bases. O Truecaller, por exemplo, é um aplicativo de identificação de chamadas e diretório colaborativo (ou seja, outras pessoas associaram este número como sendo do ministro Alexandre de Moraes).
Segundo Nathaniel Fried, CEO da plataforma, as ferramentas da empresa "funcionam integralmente com dados de fontes abertas em tempo real", ou seja, informações que as pessoas decidiram compartilhar voluntariamente e de forma pública.
"Oferecemos acesso gratuito a jornalistas para apoiar o importante trabalho que realizam ao cobrar responsabilidade dos poderosos e fortalecer a democracia", afirma.
A BBC News Brasil procurou o gabinete do ministro para comentar as informações, mas não obteve resposta até o momento.
Por que mensagens atribuídas a Moraes não foram recuperadas?
Investigadores recuperaram mensagens apagadas do celular de Vorcaro e reconstruíram parte dos diálogos com base em capturas de tela enviadas pelo WhatsApp.
De acordo com a PF, ele redigia as mensagens em um aplicativo de notas do celular. Depois, fazia uma captura de tela e enviava a imagem pelo WhatsApp, usando o recurso de visualização única.
Nesse formato, o conteúdo não ficava registrado como uma mensagem de texto convencional e poderia desaparecer depois de visualizado.
A perícia encontrou, no entanto, arquivos no próprio celular correspondentes às capturas de tela.
Segundo o relatório da PF, cada imagem gerava um arquivo temporário em formato PDF, que podia ser checado com outras informações tiradas do celular.
Esses arquivos foram localizados em uma pasta interna do sistema identificada como "tmp", abreviação de temporary, ou temporário. Trata-se de uma área usada pelo iPhone para armazenar arquivos provisórios gerados automaticamente.
Parte dos documentos havia sido apagada poucos minutos depois da criação, mas foi recuperada durante a extração forense.
"Após elaborar o texto das notas ora tratadas e realizar um screenshot do conteúdo, DANIEL VORCARO efetua, poucos segundos depois e como primeira interação no Whatsapp após o screenshot, a remessa de mensagem ao terminal", afirma o relatório da PF.
Mas somente o celular de Vorcaro foi apreendido, não o de seu interlocutor. Por isso, não foi possível recuperar esses mesmos arquivos temporários do outro lado da conversa.
Os investigadores cruzaram os horários de criação e alteração das notas, produção das capturas de tela, geração dos arquivos PDF e envio das imagens pelo WhatsApp. Também verificaram a conversa à qual cada arquivo estava associado.
Em nota divulgada na terça-feira, o escritório Barci de Moraes afirmou que seu setor de compliance consultou Alexandre de Moraes sobre a existência de possíveis impedimentos legais para a contratação de serviços pelo Banco Master.
Segundo o escritório de advocacia, a consulta ocorreu porque o ministro é marido de Viviane Barci de Moraes, sócia-diretora da banca. O objetivo seria verificar eventuais restrições, como processos sob relatoria de Moraes no STF ou julgamentos de interesse do banco.
O escritório afirma que não havia previsão de atuação perante o Supremo nem impedimento legal para a contratação. Também diz que Alexandre de Moraes "jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master".
"Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados", afirma a nota.
O que dizem as mensagens?
Os diálogos mostram que o banqueiro cobrava atenção especial aos pagamentos do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
No início da noite da terça-feira, a PGR se manifestou contra os procedimentos adotados por Mendonça e pedindo a nulidade do inquérito.
Em um dos episódios revelados pela PF, Vorcaro trata diretamente da execução do contrato firmado com o escritório Barci de Moraes. Em 8 de fevereiro de 2024, ele pediu ao cunhado, Fabiano Zettel, que enviasse o contrato assinado e questionou o vencimento da primeira parcela:
"Me manda Barci de Moraes assinado? Quando era o primeiro pgto?"
No mesmo dia, Ângelo Silva, tesoureiro do Master e também investigado pela Polícia Federal, enviou a Vorcaro o comprovante de uma transferência do Banco Master para a conta do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia no Banco Itaú, no valor de R$ 3.422.268,14.
Logo após a cobrança, Vorcaro passou a pressionar integrantes do banco sobre os pagamentos ao escritório. Em mensagem a Silva, escreveu: "Angelo. Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Não to entendendo isso. Contrato mais importante que temos te pedi pra não falhar. Surreal. Vamos ter problemas."
Minutos depois, em conversa com a funcionária Romy Goerck Gentina Klenquen, identificada nos registros como "Romy Banco Master", Vorcaro determinou que os pagamentos ao escritório não sofressem qualquer atraso:
"Romy esse Barci de Moraes por favor não deixe atrasar um dia, coloca no seu controle. É o pgto mais importante que temos."
Na sequência, reforçou a orientação: "Pode pagar sempre, sem nota."
E acrescentou: "Do jeito que for."
Ainda na conversa, Romy encaminhou o registro de uma transferência do Banco Master para o escritório de Viviane Barci de Moraes no valor de R$ 3.422.268,14.
A partir da análise dos metadados do arquivo do contrato com o Master, as investigações também apontaram que o documento foi editado por Moraes.
Em nota divulgada nesta terça-feira, o escritório Barci de Moraes afirmou que, diante da abrangência do pedido de contratação de serviços advocatícios feito pelo Banco Master, seu setor de compliance consultou o ministro Alexandre de Moraes sobre a eventual existência de impedimentos legais para a celebração do contrato.
Segundo o escritório, a consulta foi realizada porque Moraes é marido de Viviane Barci de Moraes, sócia-diretora da banca. O objetivo, de acordo com a nota, era verificar a existência de possíveis restrições, como ações sob relatoria do ministro no Supremo Tribunal Federal (STF) ou participação em julgamentos de interesse do potencial cliente.
O escritório sustenta que não foi identificada previsão de atuação no STF nem qualquer impedimento legal para a contratação. A nota afirma ainda que Alexandre de Moraes "jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master".
"Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados", diz a nota (BBC News Brasil, 2/9/26)

