11/09/2026

STF salvou a democracia brasileira, mas agora a está sufocando

STF salvou a democracia brasileira, mas agora a está sufocando

Em texto publicado nesta quinta-feira (10/09), a revista britânica The Economist afirma que o Supremo Tribunal Federal (STF) passou de "defensor" da democracia para uma ameaça à mesma.

De acordo com o artigo, após sua atuação punindo uma tentativa de golpe comandada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, o STF agora coloca em risco a democracia — em meio à corrida eleitoral — devido ao envolvimento de ministros da Corte com o escândalo do Banco Master e a "disfunção" no Supremo.

Embora o foco do texto seja o STF, a relação do candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) com o caso Master também é lembrada. Em maio, o site The Intercept Brasil revelou que Flávio teria pedido a Daniel Vorcaro, dono do Master, US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) para financiar a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro.

Boa parte do texto foca, no entanto, na atuação do ministro Alexandre de Moraes. Ele é criticado por seu histórico como relator do Inquérito das Fake News e agora pelas acusações sobre seu envolvimento com Vorcaro.

"A Suprema Corte está no centro de um escândalo de corrupção sórdido e em constante expansão. No epicentro está o ministro que supervisionou o processo contra Bolsonaro: Alexandre de Moraes", diz o texto, intitulado "Quando os defensores da democracia lhe viram as costas" (em tradução livre do inglês).

Segundo a Economist, Moraes tomou diversas "decisões questionáveis" à frente da relatoria das ações sobre a trama golpista e "menosprezou" a proposta de um Código de Ética para o STF.

Também há críticas ao Inquérito das Fake News — do qual Moraes foi retirado como relator nesta quarta-feira (09/09), por decisão do presidente do STF, Edson Fachin.

A confidencialidade e a longa duração do inquérito impedem saber quantas contas nas redes sociais foram "censuradas" por Moraes, diz a revista.

"Os abusos tornaram-se mais frequentes: Moraes tem utilizado o inquérito para blindar o caso, dada a sua atuação simultânea como vítima, acusador e juiz", critica o artigo.

Agora, "Moraes está sob escrutínio de novo", devido ao caso Master.

A Economist cita o contrato milionário entre o banco e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes. Menciona também o relatório da Polícia Federal (PF) que revelou conversas atribuídas a Moraes e a Vorcaro, no qual o banqueiro teria pedido conselhos como quando deveria sair do Brasil para aparentemente escapar da prisão.

"A frequência dessas mensagens aumentou pouco antes de Vorcaro ser preso ao tentar fugir do país, levantando receios sobre que tipo de orientação Moraes estava dando ao fraudador. Moraes nega qualquer irregularidade", diz o texto.

Então, é abordada a atual crise no STF, que começou em 1º de setembro após o sigilo do relatório da PF ter sido retirado por decisão do ministro André Mendonça, colega de Moraes na Corte.

A Economist relata que, dois dias depois, Moraes pediu a inclusão de Mendonça no Inquérito das Fake News devido a um suposto "abuso de autoridade" na divulgação do relatório da PF.

Mas Moraes "tem um ponto", diz a revista britânica.

"Mendonça ainda não divulgou provas contra outros magistrados que também mantiveram relações com Vorcaro. A Polícia Federal acusou Mendonça de interferir na coleta de provas. Em 8 de setembro, ele tentou afastar o chefe da Polícia Federal e impedir a elaboração de relatórios de inteligência sobre juízes. No entanto, em 2020, quando ocupava o cargo de ministro da Justiça de Bolsonaro, Mendonça supervisionou a elaboração de um dossiê sobre centenas de policiais e acadêmicos que Bolsonaro considerava inimigos", lembra a Economist.

A "disfunção" no STF, os "equívocos processuais de Mendonça" e "as tentativas descaradas de Moraes de se proteger" colocam em risco a própria investigação do caso Master, diz o texto. Com esse quadro, o Congresso também pode levar à frente o impechment de membros do STF e o perdão aos crimes pelos quais Jair Bolsonaro foi condenado.

Segundo a publicação, caso a investigação seja desmobilizada devido à crise no STF, um dos políticos beneficiados poderia ser Flávio Bolsonaro, o candidato mais forte da direita brasileira à Presidência.

O texto da Economist termina apontando que, no fim, a democracia brasileira pode ser a principal vítima da crise: "Os brasileiros estão cansados dos escândalos de corrupção que mancham a classe política em intervalos de poucos anos. O uso indevido de suas instituições poderia minar a confiança na democracia mais do que Bolsonaro jamais fez." (BBC News Brasil, 10/9/26)

Quem é quem na crise do STF

 Escândalo do Master deu início a guerra entre os ministros do STF. Foto Evaristo Sa.AFP

Disputas e acusações entre ministros colocaram o Supremo Tribunal Federal no centro do debate nacional. Entenda quem são os principais personagens da crise que envolve a mais alta Corte do país.

Supremo Tribunal Federal (STF) atravessa um dos momentos mais delicados de sua história recente. No centro da crise, está o escândalo do Banco Masterfraude que deixou um rombo de bilhões de reais no sistema financeiro do Brasil.

Desde o final do ano passado, a investigação do caso ocorre no âmbito do Supremo, e não na Justiça comum. E a atuação dos ministros e as possíveis relações de alguns deles com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, deram início a uma guerra na Corte, que se estendeu também pela Polícia Federal (PF) e outros órgãos de Justiça.

Relembre quem são os principais envolvidos nas tensões que tomaram conta do STF nos últimos dias:

Daniel Vorcaro 

Dono do Banco Master, o mineiro Daniel Vorcaro, de 42 anos, está preso desde março. Ele é formado em Economia e ligado à Igreja Batista da Lagoinha. Começou a carreira no ramo da educação, e posteriormente entrou no setor imobiliário. Em 2018, Vorcaro assumiu a gestão do banco que se tornaria o Master.

Ele ganhou destaque nacional quando o Master firmou operações de grande porte com o governo do Distrito Federal por meio do Banco de Brasília (BRB).

Investigações da Polícia Federal apontam que o Master estaria no centro de uma fraude de R$ 12 bilhões em créditos falsos. O escândalo gerou um rombo bilionário nas reservas do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e nos ativos de 18 fundos públicos de pensão. 

Há indícios de que o esquema de Vorcaro era beneficiado por relações próximas mantidas pelo banqueiro com figuras políticas, numa rede de influências que abrange os três poderes. 

Alexandre de Moraes

Alexandre de Moraes tomou posse como ministro do STF em março de 2017. Ele foi indicado pelo então presidente Michel Temer para a vaga que era de Teori Zavascki, morto dois meses antes na queda de um avião em Paraty, no Rio de Janeiro.

Alexandre de Moraes aparece em supostas trocas de mensagens com Daniel Vorcaro reveladas pela PF. Foto Sergio Lima AFP

Na época da indicação, Moraes era ministro da Justiça. Antes, foi promotor de Justiça, e também secretário de Segurança Pública e secretário de Justiça, Defesa e Cidadania de São Paulo, nos governos de Geraldo Alckmin. É também Professor Titular da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, onde se formou.

No STF, foi relator do inquérito sobre a tentativa de golpe de Estado, cujo julgamento resultou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro à prisão, e estava, até decisão recente do presidente do STF, Edson Fachin, na relatoria do inquérito da fake news

Mensagens apreendidas pela PF no celular de Vorcaro sugerem uma relação entre o ex-banqueiro e Moraes. O ministro teria participado das negociações de contratos milionários entre o Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre. Além disso, Vorcaro teria conversado com o ministro dois dias antes de ser preso pela primeira vez, em novembro.

Moraes nega irregularidades. O escritório da sua esposa diz ainda que os contratos seguiram a legislação e as regras aplicáveis à advocacia.

André Mendonça

André Mendonça foi indicado para o STF em 2021, pelo então presidente Jair Bolsonaro. A vaga na Corte havia sido aberta pela aposentadoria de Marco Aurélio Mello.

No governo Bolsonaro, Mendonça foi ministro da Justiça e advogado-geral da União. Ao indicá-lo ao Supremo, Bolsonaro buscava cumprir a promessa de nomear um Ministro "terrivelmente evangélico": Mendonça é pastor licenciado da Igreja Presbiteriana Esperança de Brasília.

André Mendonça é o atual relator do caso Master no STF Foto: Eraldo Peres/AP Photo/picture alliance

Quando esteve na AGU, em abril de 2020, Mendonça se posicionou contrário as medidas restritivas impostas por municípios e estados para tentar conter o avanço da pandemia de covid-19.  Durante o período que foi ministro no governo Bolsonaro, Mendonça iniciou investigações contra jornalistas e servidores públicos críticos ao então presidente.

Já no STF, Mendonça assumiu em 2025 a relatoria do caso das fraudes do INSS. E em fevereiro, foi sorteado relator da investigação do caso Master, depois do afastamento de Dias Toffoli, que pediu para ser substituído depois de ter sua atuação e sua relação com Vorcaro questionada.

Em setembro, Mendonça tornou públicos os documentos da PF contendo mensagens entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. E determinou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) analisasse as descobertas e a possibilidade de abertura de uma investigação contra Moraes. Em retaliação, Moraes encaminhou um pedido de investigação contra Mendonça a Edson Fachin, no âmbito do inquérito das fake news.

Dias Toffoli

José Antonio Dias Toffoli foi indicado ao STF no segundo mandato de Lula, em 2009. Antes, ele foi advogado-geral da União, trabalhou na Casa Civil, e foi assessor jurídico do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara dos Deputados.

No final de 2025, Toffoli foi sorteado para ser o relator da operação Compliance Zero, que investiga fraudes envolvendo o Banco Master, no STF. Pouco tempo depois, Toffoli decidiu que a investigação seria competência do Supremo, após um pedido da defesa de Vorcaro que citava o foro privilegiado de um deputado federal envolvido no caso.

Dias Toffoli deixou a relatoria do Caso Master no STF em fevereiroFoto: Eraldo Peres/AP Photo/picture alliance

Toffoli passou a ser pressionado quando surgiram indícios de uma relação dele com o Master. O ministro teria voado num avião particular junto com Augusto Arruda Botelho, advogado de Luiz Antonio Bull, um dos diretores do banco. Também pesou contra o ministro o caso do Tayayá, revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Segundo a reportagem, fundos de investimento de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, teriam comprado em 2021 parte da participação de dois irmãos e de um primo de Toffoli no resort no Paraná. 

Toffoli nega que tenha qualquer relação com Vorcaro. Contudo, com a escalada dos questionamentossaiu da relatoria do caso Master no STF em fevereiro. Andre Mendonça foi sorteado para assumir em seu lugar.

Flávio Dino 

Flávio Dino foi indicado ao STF por Lula em 2023. Antes, ele foi ministro da Justiça e Segurança Pública, senador e governador do Maranhão. No Supremo, Dino é o relator de inquéritos sobre as emendas parlamentares

Flávio Dino foi contra as ordens de André Mendonça sobre os diretores da PFFoto: Mateus Bonomi/AA/picture alliance

Na quarta-feira, Dino entrou no embate entre Alexandre de Moraes e André Mendonça ao determinar a recondução de Andrei Rodrigues e Leandro Almada a seus cargos na Polícia Federal. Na decisão, Dino afirma que as divergências de Mendonça "não podem converter-se em fundamento para a prolação de decisão em causa própria, com o efeito de paralisar investigações e os trabalhos policiais". 

Andrei Rodrigues

Andrei Augusto Passos Rodrigues foi nomeado diretor-geral da Polícia Federal em 2023, nos primeiros dias do governo Lula. Antes, foi secretário extraordinário de segurança para grandes eventos, trabalhando na Copa do Mundo de 2014 e nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016.

Rodrigues assumiu a PF em crise. Durante os quatro anos do governo Bolsonaro, a instituição teve quatro diretores-gerais (Maurício Valeiro, Rolando de Souza, Paulo Maiurino e Márcio Nunes), além de Alexandre Ramagem, cuja nomeação foi barrada pelo STF.

Andrei Rodrigues teve seu afastamento da PF determinado por André Mendonça Foto Adriano Machado REUTERS

Em setembro, André Mendonça determinou o afastamento de Rodrigues. O ministro alega que vinha sendo monitorado pela PF de forma ilícita e sistemática. No dia seguinte, o ministro do STF Flávio Dino reverteu a ordem de Mendonça e determinou a reintegração imediata de Rodrigues ao cargo. Na quarta-feira (09/09), o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu a ordem de Mendonça e a decisão de Dino, e convocou o plenário para discutir a crise na próxima terça-feira (15/09).

Leandro Almada

Leandro Almada da Costa é delegado da Polícia Federal desde 2008 e diretor de Inteligência do órgão desde 2024. Já foi superintendente regional da PF no Amazonas, na Bahia e no Rio de Janeiro, e investigou a atuação da Polícia Civil no inquérito sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Almada foi afastado Diretoria de Inteligência Policial das PF por André Mendonça, na mesma decisão que tirou Andrei Rodrigues do cargo. A ordem de Mendonça foi suspensa por Edson Fachin.

Paulo Gonet

Paulo Gonet é o atual procurador-geral da República (PGR). Ele foi indicado ao cargo por Lula em 2023, substituindo Augusto Aras. Antes, Gonet atuou como vice-procurador-geral eleitoral e subprocurador-geral da República.

O procurador-geral da República Paulo Gonet é citado em mensagens de Vorcaro Foto Gustavo Moreno Secom STF

O procurador também é citado nas mensagens de Vorcaro, e pediu a anulação do relatório da PF que liga o ex-banqueiro a Moraes. Ele alega que o ministro André Mendonça não tinha competência para encomendar uma investigação da PF na fase pré-processual, sem consultar o plenário do STF.

Ao pedir a investigação de Mendonça na Corte, Alexandre de Moraes cita a imputação falsa de crimes contra Gonet, além dele próprio, dos diretores da PF e de outros ministros do Supremo (Deutsche Welle, 11/9/26)