13/02/2026

Toffoli,o agente secreto,e os segredos que facilitam a mutreta empresarial

Ministro do STF Dias Toffoli. Foto Reprodução Blog O Globo

 

  • Fundos e empresas donos de outros fundos e empresas estão na base do caso Master
  • País precisa discutir se vai tornar mais público o nome de beneficiário final de negócios

 

Por Vinicius Torres Freire

 

De 2021 a 2025, Dias Toffoli foi sócio secreto de empresa que era sócia de um fundo de propriedade de outro fundo, Arleen, que seria de propriedade de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

 

Que se confirme agora que Dias Toffoli era de fato sócio da turma do Master apenas acrescenta uma camada de vexame a um escândalo que já era grotesco, um ministro do STF que relatava investigação sobre ex-sócios de sua família.

 

Esqueça-se por um momento que "camada" seja um clichê da moda. "Camadas" de empresas ou fundos que escondem propriedades ou beneficiários finais de negócios são um dos assuntos centrais desse rolo que começa no Master, mas vai longe. Mais sobre isso mais adiante.

 

A operação "abafa o caso" Master ficou mais frenética. Há tentativas desesperadas de controlar ou ao menos conhecer informações das relações entre Toffoli e a turma do Master ou sobre outras figuraças que apareceriam no tapete vermelho de telefones e computadores de Vorcaro. Por falar nisso, Toffoli mandou a PF entregar o que já sabe da quebra do sigilo de Vorcaro. Pode ser que assim tenha na mão informações para deixar o mundo do poder com medo.

 

Na noite de quinta, o STF e demais interessados tentavam conter danos:

1) Tirar Toffoli, que não queria sair, mas foi saído, e evitar que ele reaja;

2) Evitar convocações para CPIs —não há CPI do Master, mas se pode levar um envolvido ou uma testemunha para a CPI do Crime Organizado, por exemplo;

3) Uma repactuação com a cúpula do Congresso, ao menos de um terço do STF, a fim de evitar medidas de destruição mútua garantida (um impeachment ou uma CPI, ainda muito improváveis).

 

Em tópicos, a coisa parece organizada em excesso. Há medo e confusão em Brasília, medo de "lavajatização", pois "começou a voar papel", diz um parlamentar das antigas, se referindo a vazamentos de investigações. Se alguém poderoso for enlameado, o acordão corre risco. Quanto mais gente abatida, maior o risco de delação ou revanche.

 

O sigilo de investigações e intimidação de investigadores contribuem para o acordão, óbvio. Mas o sigilo de negócios contribui para a mutreta inicial.

 

Ficou evidente outra vez, na operação Carbono Oculto (crime com combustíveis, talvez PCC etc.), como "camadas" de fundos, uns donos de outros, serviam para rolo e crime.

 

No caso Master, o banco emprestaria a empresas, que investiam em fundos, donos de outros fundos, que punham dinheiro em negócios de fachada ou de laranjas da turma do Master, quando não inflavam o valor de ativos do banco, que assim poderia parecer bem das contas. Além disso, fundos de propriedade incógnita, de vários empresários, inflavam o valor de empresas, que serviam de garantia ou instrumento para outros negócios.

 

Primeiro resumo dessa ópera, que precisa de outra coluna: é preciso discutir a identificação dos beneficiários finais dessas "camadas" de fundos e empresas. É discussão difícil na União Europeia e nos EUA. Trata-se de definir até que ponto é razoável (se é) o anonimato do proprietário (para o público em geral, não para autoridades) e como evitar a criação de estruturas, "camadas" para ocultar patrimônio e renda (a fim de se safar de impostos ou cometer outros crimes). Vamos lembrar: Toffoli era sócio secreto; fundos da Reag, de Vorcaro, da Carbono Oculto eram de propriedade secreta (Folha, 13/2/26)