Trump pode provocar maior insegurança alimentar recente do mundo
- Manutenção da guerra no Oriente Médio reduz produção de alimentos e eleva custos
- Desestruturação do setor levará mais pessoas para o campo dos que já passam fome
Donald Trump poderá levar o mundo a um dos piores momentos de insegurança alimentar nos últimos tempos. Após um período de ligeira queda nos preços dos alimentos, que estavam em alta devido à Covid e à invasão da Ucrânia pela Rússia, a situação volta a se agravar.
O aumento do petróleo, do gás natural e dos fertilizantes, devido à guerra insana de Trump —influenciado por Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel—, vai desestruturar todo o sistema de produção de alimentos. Pelo menos metade da produção mundial necessita de fertilizantes, cujos preços estão acelerando, e um terço desse insumo passa pelo estreito de Hormuz, que continua fechado.
Além do repasse dos preços dos fertilizantes para o alimento, o consumidor vai sofrer o efeito dos custos de frete e de seguros, em vista do risco trazido por esse novo conflito geopolítico. Trump disse que acabaria com a inflação e terminaria com as guerras, mas faz exatamente o contrário. Se dizendo merecedor do Nobel da Paz, vai ter de se contentar com a medalha doada pela venezuelana Maria Corina Machado.
O relatório da fome da FAO de 2025 apontava que a situação alimentar estava melhorando no mundo, mas, mesmo assim, 673 milhões de pessoas passavam fome. Os números atuais de aumento de inflação começam a aparecer, e a própria FAO já indicou aceleração de 3% nos preços dos alimentos em março, em relação a fevereiro, devido à guerra.
A inflação americana, que vinha recuando após o pico causado pelas tarifas impostas ao mundo por Trump, voltou a acelerar, atingindo 3,3% em março no índice em 12 meses, 0,9 ponto percentual acima da de igual período de 2025, uma evolução que não ocorria desde junho de 2022, período do conflito geopolítico gerado pela Rússia.
Desta vez, as áreas em conflito são pouco representativas na produção de alimentos, mas são responsáveis por insumos que compõem o custo da produção, como energia e fertilizantes. A gasolina teve aumento de 21% em março nos Estados Unidos, e o óleo combustível, de 31%. São custos que serão repassados na produção e na distribuição de alimentos.
Os números da Europa não são muito diferentes, com alta de 15% na gasolina e de 30% no diesel, elevando a inflação média da zona do euro para 2,5%, maior aumento desde junho de 2022. Na China, a gasolina tem alta de 33%, e o diesel, de até 20%.
Outra grande economia mundial, a Índia, tem custos extras, uma vez que o país é muito dependente de óleos vegetais, produtos substitutos de parte do petróleo. A consequência dessa maior mistura é uma oferta mundial menor de produtos e elevação de preços. No mês passado, a Índia, que importa 17 milhões de toneladas desses produtos por ano, reduziu em 9% as compras, devido a dificuldades de acesso a mercados e alta de preços.
Brasil, Argentina, Canadá e Austrália, países importantes na oferta mundial de alimentos, não ficam fora desse aumento de custo e de eventual perda de produtividade, devido à redução da aplicação de insumos.
O cenário de possível queda na produção mundial leva a distorções de mercado, como a proposta da Rússia para que os países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, e mais outros seis países) criem uma reserva conjunta de alimentos, segundo informou a Reuters nesta segunda-feira (13).
Se efetivado, esse acordo diminuirá a disponibilidade de alimentos a países com menor capacidade de produção (Folha, 14/4/26)

